segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

TRATADO SOBRE A TOLERÂNCIA: POR OCASIÃO DA MORTE DE JEAN CALAS (1763), Voltaire [Resenha]

Por Celson Coêlho

VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância: por ocasião morte de Jean Calas (1763). Porto Alegre: L&PM, 2017.
“Ele combateu tanto os ateus quanto os fanáticos. Inspirou a tolerância e defendeu os direitos do homem contra a servidão do feudalismo. Poeta, historiador e filósofo, engrandeceu o espírito humano e ensinou-o a ser livre.”[1]

O Tratado sobre a tolerância traz em suas páginas iniciais alguns dados biográficos sobre o autor. Nascido em Paris, François-Marie Arouet (1694-1778) assumiu o pseudônimo de Voltaire em 1718. Devido aos seus versos criticando o rei foi afastado de Paris e depois preso na Bastilha. Após 1718 foi preso pela segunda vez e também foi exilado na Inglaterra. Durante os vários anos lá se familiarizou com a “efervescência política, social e econômica” inglesa (p. 5). Voltaire foi bastante influenciado por Isaac Newton (1643-1727) e John Locke (1632-1704). O filósofo inglês abordando o direito do indivíduo escreveu um Ensaio sobre a tolerância (1666-67), Carta sobre a tolerância (1689) e mais duas cartas sobre o tema (1692 e 1702)[2]. Essas obras podem ter influenciado a abordagem voltairiana do tema. Voltaire foi crítico do pensamento de Rousseau (1712-1778) e com seu Poema sobre o desastre de Lisboa fez explodir o antagonismo entre os dois. Um dos temas que divergiam era a ideia do progresso humano.
O século XVI na França foi marcado por cruéis guerras religiosas. Entre 1562 e 1598 vários conflitos revelavam a perseguição católica contra os protestantes. O Édito de Nantes assinado em 30 de abril de 1598 pelo rei francês Henrique IV pretendia garantir a tolerância religiosa. O documento estipulava o catolicismo como confissão oficial e permitia liberdade de culto aos calvinistas. Contudo os conflitos permaneceram, apesar do Édito, ao longo do século XVII.
Os dois primeiros capítulos do Tratado sobre a tolerância (1763) tratam do contexto em que o escrito foi motivado. Em Toulouse, em março de 1762, ocorreu o que Voltaire classifica como “um dos eventos mais singulares que possam merecer a atenção de nossa época e da posteridade” (p. 11). O autor ainda chama o caso de “assassinato”. Em relação ao estado de guerra o autor afirma: “Onde o perigo e as vantagens são iguais, o espanto cessa e até mesmo a piedade se enfraquece.” Para ele era esse espírito que permeava o ambiente de Toulouse a época. “O povo de Toulouse... considera como monstros seus irmãos que não pertencem à mesma religião que eles” (p. 13). O filosofo francês questiona nesse livro o desfecho do caso Jean Calas. Calas era um comerciante protestante da cidade. Foi acusado pelo tribunal criminal de ter assassinado o filho por ter se convertido ao catolicismo. O boato voou pela cidade e todos se revoltaram contra Calas e pressionaram o julgamento. O filósofo lembra que em questão de pouco tempo ninguém questionava se o pai havia matado o filho por questão de fé. “Depois que os espíritos são arrebatados, não há como acalmá-los” (p. 13).
Relevante também é o histórico da cidade quanto à questão de disputas religiosas. O escritor em algumas partes do texto salienta que Toulouse respirava o clima de intolerância. Ele cita as comemorações, após duzentos anos, da Noite de São Bartolomeu. Refere-se também a Festa de Toulouse (p. 13, 15 e 60). Em 1562 reis católicos franceses lideraram massas populares em perseguição aos protestantes. Esses dias sanguinários ocorreram em torno de 12 cidades. Ficou conhecida também como Massacre da Noite de São Bartolomeu. Milhares de protestantes foram assassinados por perseguidores católicos. Toulouse foi uma das cidades do massacre. “A festa que os moradores de Toulouse celebram todos os anos em memória de um massacre de quatro mil huguenotes[3]...” A condenação do comerciante protestante em data próxima a essa festa era vista pelo autor como “o maior ornamento da festa” (p. 15)[4].
A posição de Voltaire quanto à condenação é que Calas era inocente. Lembra que o filho do comerciante havia lido vários livros sobre suicídio. Também salienta que o pai mantinha por alguns anos uma empregada de fé católica e permitia que ela ajudasse na criação dos filhos. Devido a tantas questões lógicas, como essas, que desprezaram para condenar Jean Calas, Voltaire considera que a razão foi ignorada pelo fanatismo. “Não havia – e não podia haver – qualquer prova contra a família, mas sua religião assumia a lugar da prova” (p. 17). Sendo assim, o autor recorre à razão. Um dos seus argumentos relevantes no texto. Quanto a Toulouse ele faz o alerta: “A razão tem mais poder em Paris do que o fanatismo, por maior que este possa ser, ao passo que na província o fanatismo prepondera quase sempre sobre a razão” (p. 19). Ainda diz que essa falta de razão ocorre “justamente em um tempo no qual a filosofia já realizou tantos progressos.” Sobre a razão, em outro texto, escreveu ele:
“Vejo que hoje, neste século que é a aurora da razão, ainda renascem algumas cabeças da hidra do fanatismo. Parece que seu veneno é menos mortífero e que suas goelas são menos devoradoras... No que me tange, acredito que a verdade não deve mais esconder-se diante dos monstros e que não devemos abster-nos do alimento com medo de sermos envenenados.”[5]

Pintura retrata o flagrante de Jean Calas
A decisão dos julgadores não deviria ser influenciada nem por questões religiosas nem pela comoção popular. Por isso ainda defende que sendo uma condenação por algo tão grave deveria gozar de decisão unânime. O que parece que não ocorreu. Qualquer dúvida quanto ao caso deveria ser suficiente para não assinarem a pena de morte. Para o Voltaire a razão não foi levada em conta nesse julgamento. Em trecho posterior do texto, no capítulo XX, ele lembra que “a razão penetra mais fundo na França” (p. 105). A tomadas de decisões, sejam políticas ou judiciais, não podem ocorrer em detrimento da razão que tem iluminado sua época, salienta o autor.
O escritor lembra que o contraponto da razão é a superstição. “Quando os homens não têm noções sadias da Divindade, as ideias falsas ocupam seu lugar, como durante épocas infelizes se comercia com moeda falsa na falta da verdadeira” (p. 103). O capítulo XX tem como título o questionamento: “Se é útil conservar o povo na supertição.” Em seu artigo sobre superstição no Dicionário Filosófico afirma que “as épocas de maior superstição foram sempre as dos mais horríveis crimes.”[6] O supersticioso não pode ser apenas tratado com um ingênuo. Para o autor, o supersticioso é facilmente governado por um fanático e levado a fazer fanatismos. Talvez como ocorreu no julgamento de Jean Calas...
Superstição e fanatismo andam de mãos dadas. Este, realizado em nome de Deus, levou todos a defenderem que um pai, Jean Calas, ajudado pela mãe, estrangulou o próprio filho para agradar a Deus. No início do capítulo XVIII o autor chega a defender a punição, por parte do governo, ao fanatismo. “É preciso, portanto, que os homens comecem por deixar de ser fanáticos a fim de merecer a tolerância” (p. 97). No dicionário assim refere-se: “O fanatismo, em relação à superstição, é o mesmo que o arrebatamento é para a febre ou a raiva para a cólera [...] Desde que o fanatismo atacou o cérebro de alguém, como se se tratasse de uma gangrena, a doença é quase incurável.”[7] No compêndio filosófico ainda faz questão de citar a noite de São Bartolomeu como o exemplo “mais detestável” do fanatismo. Classifica como “fanáticos a sangue-frio” os juízes que condenam de forma injusta. Talvez estivesse pensado nos juízes do caso Calas...
O filósofo aborda especificamente sobre a tolerância em 3 capítulos. Soma-se a isso mais dois capítulos sobre a intolerância.[8] Em alguns países da Europa, lembra o autor, as diferenças entre religiões levaram ao “derramamento de sangue”. Porém, tais países como Alemanha, Inglaterra e Holanda, os de diferentes religiões “vivem como irmãos e contribuem igualmente para o bem da sociedade” (p. 29). Contudo, a França, na mesma época, não conseguiu semelhante estado de tolerância. Sendo os líderes religiosos católicos franceses o “principal obstáculo” para isso (p. 31). Em seguida apresenta o exemplo de várias nações e religiões ao redor do mundo que são tolerantes. Voltaire era constante crítico do fanatismo e despotismo dos líderes religiosos pois era o que levava a intolerância. Em seu verbete Tolerância ele assim afirma: “é o apanágio da humanidade. Somos todos cheios de fraquezas e de erros; perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices, tal é a primeira lei da natureza.”[9] Voltaire entende que a multiplicidade das religiões contribui para a tolerância. “Quanto mais seita houver, menos cada uma delas será perigosa” (p. 35). Existir uma religião dominante dissemina o espírito intolerante.
Sobre a religião o escritor deixa claro: “pela graça de Deus eu sou um bom católico” (p. 116). Apesar dessa afirmação é sabido que Voltaire foi perseguido pelo clero francês. Foi considerado ateu. Teve seus livros queimados em praça pública e foi-lhe tirado o direito de ser sepultado em solo francês. Ele admite que a religião serve como freio moral: “Em qualquer lugar em que houver uma sociedade estabelecida, uma religião é necessária; as leis reprimem os crimes conhecidos, enquanto a religião se encarrega dos crimes secretos” (p. 103). Contudo não aceita ser considerado crime não acreditar na religião dominante (p. 63). No verbete Religião no Dicionário Filosófico ele trata da separação do Estado e Igreja. A separação entre os dois é constantemente evocada pelo filósofo. No verbete Leis Civis e Eclesiásticas, ao tratar dessa distinção, assevera: “que nenhum padre possa, em caso algum, privar qualquer cidadão da menor prerrogativa, a pretexto de que esse cidadão é pecador, pois o padre pecador deve rezar pelos pecadores e não julgá-los.”[10]
Temas como razão, tolerância (e intolerância), superstição, fanatismo e religião tratados por Voltaire em seu livro foi de grande valia para França de sua época e também para nossos dias. O escritor, mesmo sendo católico, consegue em seu discurso fazer análises críticas de algumas dificuldades de sua religião. Voltaire, que chegou a ser considerado ateu, revela a possibilidade de equilíbrio entre a religião e a razão. Essa possibilita um convívio harmônico que gera a tolerância.

[Resenha elaborada como requisito parcial disciplina História Moderna II, no curso de Licenciatura em História na Universidade Federal Rural de Pernambuco. Janeiro de 2018.]




[1] Epitáfio sobre o túmulo de Voltaire.
[2] Ver VÁRNAGY, Tomás. O pensamento político de John Locke e o surgimento do liberalismo. En publicacion: Filosofia política moderna. De Hobbes a Marx Boron, Atilio A. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales; DCP-FFLCH, Departamento de Ciências Políticas, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, USP, Universidade de São Paulo. 2006. ISBN: 978-987-1183-47-0 Disponível em http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/filopolmpt/04_varnagy.pdf, acesso: 08/01/2018.
[3] Termo usado para se referir aos protestantes durante as guerras religiosas na França.
[4] Esse massacre foi abordado por Alexandre Dumas no romance A Rainha Margot.
[5] Em O Filósofo Ignorante, p. 318. (VOLTAIRE. Os Pensadores. 2 ed. São Paulo: Abril Cultura, 1978).
[6]  Em Dicionário Filosófico, p. 287. (VOLTAIRE. Os Pensadores. 2 ed. São Paulo: Abril Cultura, 1978).
[7] Em Dicionário Filosófico, p. 182. (VOLTAIRE. Os Pensadores. 2 ed. São Paulo: Abril Cultura, 1978).
[8] Capítulos IV, V e VI sobre a tolerância e VII e VIII sobre a intolerância.
[9] Em Dicionário Filosófico, p. 290. (VOLTAIRE. Os Pensadores. 2 ed. São Paulo: Abril Cultura, 1978).
[10] Em Dicionário Filosófico, p. 235. (VOLTAIRE. Os Pensadores. 2 ed. São Paulo: Abril Cultura, 1978).

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

DO CATIVEIRO BABILÔNICO DA IGREJA, Martinho Lutero (Resenha)

Por Celson Coêlho

LUTERO, Martinho. Do cativeiro babilônico da igreja. São Paulo: Martin Claret, 2006. 159p.

“O agostiniano possuía uma caráter forte, unilateral, descomedido, exuberante, impulsivo, mais disposto a se apossar da realidade que a aceitá-la humildemente.”[1] Assim alguns viam Lutero. Na verdade esse bispo agostiniano foi responsável pelas reformas que reavaliaram os rumos da Igreja cristã no século XVI. De personalidade polêmica, Martinho Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, em Eisleben, ao sul de Berlim, na Alemanha. Morreu na mesma cidade em 18 de fevereiro de 1546. Recebeu influência dos Irmãos de Vida Comum[2] a partir de 1497. Estudou filosofia na universidade de Erfurt. Obteve o grau de Bacharel em Artes em 1502 e Mestre em Artes em 1505. Nesse mesmo ano começou a lecionar artes na faculdade dos Artistas. Por essa época Lutero enfrentou o perigo de morte diante de um grande temporal. A partir daí fez um voto com Deus e passou a se interessar por Teologia. Ingressou no convento agostiniano onde foi levado a ensinar Teologia e aprimorar sua formação na área. Obteve o grau de Bacharel em Teologia (1508) e Doutor em Teologia (1512) na universidade de Wittenberg. O texto mais conhecido desse teólogo alemão foram suas 95 teses. Elas foram inicialmente divulgadas aos seus superiores, bispos de Brandenburg e Magdeburg. Após houve grande difusão desse texto por esses bispos, além do que o próprio Lutero esperava.
Em suas teses o agostiniano criticou a prática de vendas de indulgências. Essa crítica levou-o a ser denunciado por heresia e ao processo por heresia que concluiu com sua excomunhão e banimento em 1521. Durante esse processo de julgamento, principalmente em 1520, foi abundante a produção de textos atacando Lutero. Textos que o próprio julgado se defendia também foram produzidos. Ainda em 1920 o agostiniano produz três textos importantes em sua defesa. Entre eles se encontra “Do Cativeiro Babilônico da Igreja: um prelúdio”[3]. Sobre a motivação desse texto, o próprio escritor salienta adiante: “Mas dirás: Que há? Queres subverter todo o uso e costume das igrejas e dos monastérios que tiveram validades durantes tantos séculos (...)? Respondo: é precisamente esse o motivo que me levou a escrever sobre o cativeiro da Igreja!” (Lutero, 2006, p. 51, 52)[4]. Nesse texto o autor intensifica sua crítica à fundamentação errônea do sacramento e ao seu uso com objetivo de trocas diante de Deus. Os sacramentos eram à base da Igreja de então. Tinham objetivos claros de regular a vida: nascimento, casamento e morte[5]. Só tinham valor se realizados sob ofícios da Igreja: os sacramentos. A essa forma de controle Lutero chamou de “cativeiro”. Para ele a Igreja se tornara como o “cativeiro babilônico”, pois os cristãos estavam exilados do que seria a verdade dos sacramentos (p. 50).
O texto em análise foi uma tradução do original latim Do Capitivitate Babylonica Ecclesiae Praeludium. Foram acrescidos ao seu início uma introdução de um teólogo brasileiro[6] e ao seu final textos complementares[7]. No que poderíamos chamar de introdução do próprio Lutero (a partir da p. 19) ele reconhece que em outro momento foi mais flexível com a questão das indulgências. Agora “decididamente, compreendi que elas nada mais eram que meras imposturas dos aduladores romanos, através dos quais eles punham a perder a fé em Deus e o dinheiro das pessoas” (p. 19). O reformador alemão cita uma questão envolvendo “um outro frade alemão, de Leipzig”. Este, afirma Lutero, escreveu ataques em relação ás “duas espécies do Sacramento” (p. 21). Essa polêmica envolve a questão da Eucaristia, ocasião em que aos leigos apenas é ministrada uma espécie, o pão (hóstia), e não o vinho. Este apenas era possibilitado ao sacerdote. Esse embate permeia boa parte do livro “Do Cativeiro Babilônico”.
O primeiro sacramento começa a ser tratado na página 26: o “Sacramento do Pão, o primeiro de todos”. Na sua crítica Lutero lembra a importância das Escrituras: “Essas queremos estudar” (p. 27). Essa metodologia de fundamentar-se pelo texto das Escrituras encontramos como base de todos os argumentos contra a instituição romana dos Sacramentos. Esse sacramento, designado por ele como “primeiro de todos”, é o que recebe maior atenção no texto, aproximadamente 1/3 do escrito. O questionamento é: porque na Eucaristia apenas ao sacerdote é ministrado o pão e o vinho, e ao leigo não é permitido esse último? A instituição da primeira ceia feita pelo próprio Cristo, conforme registrada nos Evangelhos, foi ministrada as duas espécies para todos.
“Se porém, (ambas as espécies) foram dadas simultaneamente aos leigos, depreende-se inevitavelmente (deste fato) que não se deve negar ambas as espécies aos leigos. Se alguém se negar a dá-las ao que as pedem, age impiamente contra o exemplo dado por Cristo e (sua) instituição.” (Lutero, 2006, p. 28)
A inquietação do autor se demonstra ao asseverar por algumas vezes: com que autoridade a Igreja faz isso? Sua conclusão vem em seguida: a Igreja ordenou por invenção humana. Faltando fundamento nas Escrituras essa instituição não passa de “vaidade do frei... seu sonho... não podendo se deduzir nenhuma letra [da Escritura]...” (p. 30). A partir dessa afirmação Lutero também questiona a validade da Igreja condenar alguns como hereges e cismáticos se ela mesma não usa as Escrituras, mas apenas a vontade humana. Nessa mesma linha de análise ele também questiona a autoridade do Papa. Nem ele nem mesmo um anjo pode negar ambas as espécies aos leigos. “É ímpio e tirânico” (p. 32). Também está em jogo, conforme o agostiniano, a liberdade cristã. Não cabe ao “tirano romano” extinguir a liberdade concedida por Cristo (p. 33). Dentro da crítica a Eucaristia da época, ele também ataca a realização missa, que no seu entendimento passou a ser um negócio. “Fizeram do divino Sacramento verdadeiros dias de feira livre” (p. 41). Sobre a missa Lutero ainda lembra que pela prática de fazer a consagração em voz baixa se exclui mais uma vez o povo. Como se essas palavras fossem “demasiadamente sagradas para serem entregues ao povo” (p. 45). Em outras palavras: o povo não era tão santo quanto os sacerdotes para ouvirem a consagração. A missa deveria ser envolta em simplicidade, assim foi na instituição da primeira ceia com Cristo. Isso também possibilita maior proximidade com o povo. A pompa dos rituais apenas acentua a divergência sacerdote versus leigo. Finalizando sobre o primeiro sacramento (p. 58) Lutero usa termos que chamam para liberdade do cativeiro: consciência, perdão, gratuidade, somente a fé e o testamento de Cristo como única regra. Assim faz lembrar os novos princípios teológicos da Reforma Protestante.[8]
O segundo Sacramento analisado é o batismo. Esse ao ser ministrado em crianças era o exemplo da não contaminação. Sem a maldade dos adultos, afirma o autor, mantinha-se conservado da “avareza e da superstição” (p. 58). Ele lembra que o batismo foi de certa forma colocado em segundo plano, pois descobriram em outros sacramentos uma possibilidade para perdão dos pecados e para se “chegar ao céu”. Lutero faz um chamado à simplicidade ao invés da pompa criada no rito da época (p. 59). Mais uma vez o teólogo alemão questiona a autoridade e tirania do Papa: “Essa glória de nossa liberdade e conhecimento do Batismo estão cativos em nossos dias. A quem podemos atribuí-lo se não à única tirania do Pontífice Romano (...)?” (p. 69). Assevera que o cristão não está sob o julgo de nenhuma lei, seja humana ou institucional. A única lei que deve seguir é a divina. Quando uma orientação é imposta sem exemplo da Escritura é perigoso obedecê-la.
Os dois primeiros sacramentos foram tratados de forma mais abrangente. Os próximos serão tratados de forma simples. Sobre a Penitência (p. 79), lembra que já escreveu outros tratados a respeito. De início volta a lembrar que esse sacramento, como os outros, está envolvido pelo lucro e pela ganância. A penitência, que pode ser dividida em três etapas: contrição, confissão e satisfação (p. 80), deve ser regida pela fé. Deve ser independente dos rituais. Sendo a confissão uma ação que pode ser feita entre irmãos e não apenas ao sacerdote. O quarto sacramento é o da confirmação, poucas palavras sobre ele (p. 87/88). Alega não ser um sacramento divinamente instituído. O matrimônio, outro sacramento, é analisado a partir da página 88. O reformador lembra que o “mero sinal não pode ser sacramento”. O matrimônio existe independente da Igreja. O autor analisa o texto de Efésios 5.32 com uma tradução não adequada ao chamar o “matrimônio como sacramento”. Na verdade o mais adequado, conforme Lutero, seria “matrimônio como mistério.” Nesse sentido “o sacramento é mistério e coisa secreta que se indica por meio de palavras, mas se compreende pela fé do coração” (p. 90). Para o agostiniano os romanos se tornaram mercadores da fé: “O que eles vedem? Vulvas e uretas” (p. 93). Para ele a Igreja apenas queria tirar lucro do casamento. Por isso o institucionalizara como sacramento. O sexto sacramento, a Ordem, alerta sobre “em todo Novo Testamento não ser mencionado uma só palavra” sobre ele (p. 101). Mais um sem instituição divina. Em seus argumentos Lutero recorre a Agostinho. Torna-se relevante pois ele mesmo era da ordem dos agostinianos. Citando o bispo de Hipona lembra que alguns fazem uso equivocado de Agostinho. Também salienta que mesmo o Santo Agostinho deveria estar em conformidade com a Escritura. Assim a Ordem tem valor como rito eclesiástico como tantos outros. A Ordem como sacramento serve apenas para alimentar a “implacável discórdia entre clérigos e leigos” (p. 105). A Ordem é um sacramento que mina a fraternidade cristã. Em sua última análise aparece o sacramento da Extrema-Unção. Ela tem como alvo quem está em extremo perigo de morte (p. 110). A Igreja defende esse sacramento a partir do texto de Tiago 5.14,15. Conforme Lutero esse texto defende a oração por todos os doentes, não apenas os que estão em perigo de morte, e deve ser feita para sarar o enfermo, não para “encaminhá-lo” em boa morte. A extrema-unção, como possibilidade de perdão e paz a beira da morte, pode ter sido mais um rito para angariar recursos para Igreja (p. 115).
A título de conclusão Lutero lembra que é o que tem por ora. Lembra que todos esses sacramentos não partem das Sagradas Escrituras, foram na verdade engendradas no seio das universidades e recebidos pela Sé romana. Os teólogos, afirma o reformador, deveriam proporcionar a Igreja o conhecer verdadeiro das Escrituras e saber fazer o uso legítimo dos sacramentos. Mas, na verdade, “obscurecem-nas deliberadamente” (p. 116). “Eu, se não consegui, pelo menos procurei não obscurecê-lo e facilitei a outros a oportunidade de pensar melhores coisas.”
“Do Cativeiro Babilônico” se reveste de importância, pois Lutero se coloca como defensor do povo. É um texto pensado a partir da necessidade do leigo que se vê excluído dos rituais da Igreja. Mesmo após sua formação acadêmica ele não se vê como um homem da universidade. Seu viés humanista também o faz lutar contra o controle dos cristãos por parte da Igreja. Desfazendo as colunas dos Sacramentos, será destruído o controle. A ideia da Igreja apenas como os sacerdotes, uma herança medieval, é desfeita pelo bispo alemão. Reconhece a Igreja como todo povo de Deus (p. 30). Por isso os sacramentos não são propriedade dos sacerdotes, eles são apenas ministros (p. 33). O texto faz questão de resgatar a fé como qualidade individual, independente das instituições. Se o sacramento não for ministrado corretamente, o solicitante o recebe pelo mérito da fé. Permeia também seus argumentos a questão da liberdade em detrimento do poder institucional. Outra ideia humanista vista no teólogo reformador é o uso das Escrituras de forma simples e conforme a gramática. Isso traz reflexo sobre a ministração da missa: “deveria ser feita em qualquer língua popular, para que se promova a fé com maior eficácia” (p. 55). Outra triste herança medieval rejeitada pelo agostiniano era a pompa dos ritos. Apenas servia para criar maior separação entre clero e leigos. Essa separação apenas servia como forma dos sacerdotes, e o Papa como maioral deles, dominar o povo. A imposição de autoridade é constantemente questionada. Ninguém tem o direito de impor ao cristão, a não ser pelo próprio consentimento dele (p. 69). Tirando a separação e o domínio, ações de fraternidade cristã, como a própria confissão de pecados (p.83/84), seriam mais comuns entre os irmãos.
                Necessário e relevante ao cristianismo do século XVI, esse texto do reformador protestante é bastante atual. Os rituais pomposos, a procura por domínio através da imposição de autoridade, a separação entre “castas” mais santas, o interesse financeiro, imposição da instituição em detrimento do indivíduo, etc. ainda têm espaço na Igreja.

[Resenha elaborada como requisito parcial disciplina História Moderna I, no curso de Licenciatura em História na Universidade Federal Rural de Pernambuco. Julho de 2017.]



[1] MARTINA, Giacomo. Historia da Igreja: de Lutero a nossos dias. 5 ed., São Paulo: Loyola,2014, p. 122.
[2] “Movimento de piedade que buscava o temor de Deus e a santificação da vida do leigo no dia-a-dia, mais conhecido como ‘devoção moderna’.” (Por Martin Dreher, na introdução do livro, p. 11)
[3] A publicação desse texto, conforme DREHER, data de 06/10/1520 (p. 14). Os outros textos em destaque seriam: “Do Papado de Roma: contra o celebérrimo romanista de Leipzig” e “À Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca do melhoramento do Estamento Cristão.”
[4] Nas próximas referências seguem apenas a referência a página.
[5] A Igreja reconhecia 7 sacramentos ao todo. De forma resumida esses três sacramentos mostram como a igreja controlava o início, meio e o fim da vida. (Nascimento com o batismo e a morte com a extrema unção).
[6] Martin N. Dreher, com doutorado em História da Igreja na Alemanha.
[7] Dois textos elucidativos sobre Lutero: As 95 teses e Informes Biográficos.
[8] Os solas da Reforma Protestante: sola gratia, sola fides, sola scriptura e sola Cristus.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A VIDA PARECE UM EMARANHADO

Por Celson Coêlho


A vida parece um emaranhado. São pessoas, acontecimentos e decisões. Bons e ruins. Intensos e suaves. Tudo se misturando e resultando no “eu” que somos.

Creio na verdade nos propósitos em tudo. Algo parecido com o trabalho de um tecelão que realiza uma obra de arte com vários fios que isolados parecem não ter valor. A beleza está em conseguir contemplar o todo e não cada fio.

Ravi Zacharias propôs isso no livro o Grande Tecelão. Sendo indiano, fez analogia com os tecelões indianos:

“Ora, se um tecelão comum pode pegar uma poção de fios coloridos e criar uma vestimenta para embelezar a aparência, não seria possível o Grande Tecelão ter um projeto em mente para você, um projeto que lhe adorna, enquanto ele vai usando a sua própria vida para moldá-la segundo o seu propósito, utilizando todos os fios ao seu alcance?” (p. 16)
E assim seguimos nas mãos do Grande Tecelão, Deus. Que Ele nos cuide e faça sua grande obra de arte com todos os fios.

“Nossa vida contém fontes mil,
E morre se uma se esgotar;
Estranho que uma harpa de cordas mil
Mantenha a harmonia por tanto tempo sem parar!” (Estrofe do hino de Isaac Watts, citado por Zacharias, p. 17)


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O FILME “ASSASSIN’S CREED” E O OBJETIVO DA RELIGIÃO

Por Celson Coêlho


Por esses dias assisti ao filme “Assassin’s Creed”. Achei interessante sua forma ficcional de interpolar a inquisição espanhola com a atualidade. Por isso procurei assisti-lo.

O filme é uma adaptação do game com mesmo nome, mas de pouco interesse para nosso objetivo. Também não pretendo recorrer aos detalhes históricos da inquisição, não cabe aqui.

Resumidamente: o enredo mostra um detento atual sendo usado num projeto que, numa viagem no tempo, tenta encontrar um artefato desejado, a Maçã do Éden. Para isso faz-se necessário um descendente de um membro da irmandade Credo dos Assassinos. Pois assim será possível reviver as memórias do seu ancestral e descobri onde esconderam o artefato.

Sem antecipar o filme para os que desejam assistir, se desenrola “insights” entre a inquisição espanhola por volta de 1400 e os dias atuais. Na verdade o fio condutor é o interesse pela Maçã do Éden. Interesse que fez parte da história e ainda gera disputas na atualidade, conforme o filme.
Isso serviu para ambientar. Vamos ao que interessa: o que tem nessa bendita Maçã do Éden? Nela existe um código/poder que pode gerar o controle do livre arbítrio da humanidade (também esclareço que não interessa aqui os conceitos teológicos sobre livre arbítrio e predestinação, têm aos montes no “Google”).

Se bem entendi o enredo, um dos grupos, os Templários, o braço armado da religião, tenta encontrá-la para erradicar a violência. Tendo o controle sobre o livre arbítrio se controlará a violência. Para eles o livre arbítrio impede a paz. Por isso é melhor controlá-lo.

Rapaz!!! Não parece que é assim mesmo que fazem uso da religião. Têm o objetivo de controlar a liberdade de escolha das pessoas. Parece que esse é o objetivo de muitos que “comandam” as religiões. Criam-se normas de condutas pesadíssimas para manter as pessoas presas.

O outro grupo, os “Assassin’s Creed”, lutam para manter a maça protegida, pois para eles a paz é alcançada defendendo a liberdade de escolha. Como contrariam os interesses dos que comandam a religião instituída são chamados de assassinos. Lógico que o filme é de ação e tem assassinatos sim. Mas o outro grupo também mata. Mas não são chamados de assassinos. São Templários. Defensores do templo. Entende? Os contrários são assassinos...

Não parece um pouco com o que vemos por aí?

Em um dos diálogos entre o “assassino” cobaia e a “doutora” responsável pelo projeto ele relembra que o objetivo é salvá-lo do “gene” da violência. Na sequência ele questiona: “e quem salvará você?”

“Atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.” (Disse Jesus em Mateus 23.4)


Trailer do Filme
https://www.youtube.com/watch?v=jTgzJ79KDsg

Críticas sobre o filme
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-198730/criticas-adorocinema/
http://cinema10.com.br/filme/assassins-creed-movie


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Lucas 6: CUIDADO COM A PRESUNÇÃO


 Por Celson Coêlho

Vivemos uma época que o espírito de conquista nos é imposto. Desde a infância somos impulsionados a competir. A cada momento parece estarmos nessa busca de “quanto mais, melhor”.

Ao formar seu grupo de discípulos Jesus sabia disso. Em Lucas 6 ele vai demonstrar preocupação nesse sentido, pois quando o espírito de conquista impera as vidas são ignoradas.

Tendo uma multidão que o seguia e vendo a repercussão de seus milagres, achou por bem de início alertar seus discípulos mais próximos: “O discípulo não está acima do seu mestre; todo aquele, porém, que for bem instruído será como o seu mestre” (Lc 6.40).

Existe uma corrida para ser o melhor em todas as áreas. Estar acima é o alvo. Chegar ao topo. Com isso se cria a presunção de ser melhor que o outro. Lembremos que presunção significa opinião excessivamente boa acerca de si.

Jesus continuou com seu alerta: se você se achar o melhor, sabe o que vai acontecer? Você vai enxergar um cisco no olho do outro, mas não enxergará uma trava no seu. Ou seja, você vai assumir uma posição de superioridade moral. Isso impedirá de ajudar o teu irmão (Lc 6.41, 42). Agindo assim você será como um cego guiando outro cego, o fim dos dois será um barranco, será a queda (Lc 6.39).

A presunção torna a leve imperfeição do outro mais aparente que uma grande imperfeição em nós.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Lucas 5: MAIS DO QUE PALAVRAS


 Por Celson Coêlho

A segregação impõe fortes dores psicológicas ao ser humano. Os diferentes, os “defeituosos” sempre são de alguma forma segregados; separados do convívio e evitados.

Na leitura do evangelho de Lucas vimos que tentaram fazer isso com Jesus. “Os da sinagoga”, com a força das suas regras, demonstraram que ele não era bem vindo. Agora, após a chamada dos seus discípulos mais próximos, Jesus tem uma grande oportunidade de desfazer o sentimento de segregação que imperava.

Um leproso vem ao encontro de Jesus (Lucas 4.12-16). Causa estranheza, pois ele deveria estar fora da cidade e ao caminhar deveria gritar: “Imundo! Imundo!” Para que todos se afastassem dele. A lepra era uma doença terrível e temida. Desfigurava a pessoa e, muitas vezes, era fatal. A proteção dos “saudáveis” era afastar o leproso do convívio. Além do mal físico causado pela doença, era imposto um grande peso psicológico.

Encontrando-se com Jesus o homem clama: “purifica-me!” Seu desejo é deixar de ser imundo, não apenas curar-se. É deixar de viver isolado e não ter mais que gritar “Imundo! Imundo!” e ver as pessoas se afastando dele. “Purifica-me!” Torna-me uma pessoa comum novamente. Restitui-me ao convívio entre os outros.

Jesus poderia apenas declarar: “seja curado.” Com certeza assim ocorreria. Porém ele demonstra amor e mostra o exemplo tocando nele. Jesus não precisava de proteção contra os “defeituosos”.

Ele demonstrou com atitude o que afirmou nas palavras: “O médico deve estar onde está o doente e não entre os saudáveis. O salvador deve estar entre os pecadores e não abraçado com os bons” (Lc 5.31, 32).

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Lucas 4: VOCÊ NÃO É DA NOSSA PANELA! NELA VOCÊ NÃO ENTRA!


Por Celson Coêlho

“Você é daqui mais aqui você não entra!” Talvez isso que eles realmente queriam afirmar. Uma das necessidades do ser humano é aceitação em grupo, a socialização. Só que nem sempre isso ocorre com facilidade.

No capítulo 4 de Lucas, Jesus é chamado para ler uma parte das Escrituras. Mas ele complica a situação. Já existia um grupo formado ali e ele parece fugir dos ditames dos homens da sinagoga.

Primeiro afirmou que sua leitura de Isaias, indicando a ação do Messias esperado, se cumprira naquele momento. Acho que pensaram: “foi só fazer uma leitura bíblica e já está querendo aparecer.” 

Então resolveram colocar Jesus no lugar dele: “Não é este o filho de José?” (Lc 4.22) Não é este o filho do carpinteiro? Como quer inventar moda aqui na sinagoga?

Completando a confusão Jesus demonstrou que eles na verdade não sabiam de nada: “Olhem a história de Israel. Na época de Elias existiam várias viúvas em Israel. Mas o profeta foi enviado apenas a Viúva de Sidom. Existiam muitos leprosos na época de Eliseu. Mas o sírio Naamã que foi purificado” (Lc 4.25-27). Vocês não sabem de nada inocentes! Está acontecendo o agir de Deus fora das panelas e vocês não entendem isso.

“Todos na sinagoga ouvindo essas coisas se encheram de ira” (Lc 4.28). Após isso expulsaram Jesus e tentaram matá-lo.

Hoje devemos ter muita cautela. Corremos o risco de expulsar e “matar” a mensagem de Deus entre nós...

Observação: Jesus era de Nazaré e os de Nazaré não o aceitaram.