terça-feira, 2 de setembro de 2008

“O ZELO DO TOLO O MATA” (Jó 5.2) Considerações bíblicas sobre o zelo cristão - Parte 2

(Parte 2)

"O caminho da santidade pode levar ao farisaísmo!"

III - Os Discípulos e o zelo do Mestre (Lc 9.51-56)

Tudo o que Jesus ensinara aos seus seguidores era diametralmente oposto ao que fazia e ensinava os escribas e fariseus. Foi de Cristo essa declaração: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.” (Mt 5.20)
No seu discurso do Sermão do Monte (Capítulos 5 a 7 de Mateus), o Mestre vai comparar os ensinos dos escribas e fariseus com os seus. Por 6 vezes ele salienta “ouvistes o que foi dito aos antigos... eu, porém, vos digo...” Cristo queria que seus discípulos distinguissem o que era ensinado pelos doutores da lei judaica e o que realmente era vontade de Deus para suas vidas. A vontade do Pai estava expressa nos Seus ensinamentos.
Os discípulos do Salvador não deveriam incidir nos mesmos erros dos “sepulcros caiados” (Mt 23.27). Porém, eles, como nós hoje, corriam o risco desse mal.

No relato de Lucas 9, temos os irmãos Tiago e João. Este considerado o discípulo do amor. Eles propõem uma solução para um possível problema que estavam enfrentando. Os samaritanos não quiseram receber Jesus (Lc 9.53). Lembremos que os dessa etnia não eram bem aceitos pelos judeus, não seguiam suas regras de culto a Deus (Jo 4.1-30).
Os discípulos foram incisivos: “queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?” Que forma mais zelosa de tratar as coisas de Deus. Vemos aqui uma expressão do zelo cristão, uma atitude que até parece boa, louvável. Homens íntegros. Compromissados.

Mas, qual é a posição de Cristo quanto a isso?
Aquele que realmente sabia quaç era a vontade do Pai e como praticá-la. O que ele tinha a dizer disso?
A resposta do Mestre é uma repreensão. Aquele que tinha ensinado a tolerância nos versículos anteriores (Lc 9.49, 50). O mesmo que disse “não proibais”, agora reprova o excesso de zelo dos seus imitadores. Parece-me que a orientação dos versículos anteriores não surtiu efeito. Precisavam ser repreendidos, advertidos, reprovados. Com essa atitude não estavam imitando a Cristo. Estavam mais parecidos com aqueles que O perseguiam.

Duas considerações são úteis aqui:

1) “Vós não sabeis que espírito sois” (v 55) – Parafraseando: “vocês não sabem que sentimento está em vocês”. O entendimento equivocado já começara a ser revelado no verso 46 quando interrogam a Jesus sobre quem é o maior no Reino. A regra do Reino de Deus é inversa da concepção humana, “aquele que entre vós for menor de todos, esse é que é grande.” (v 48) O zelo humano muitas vezes também não coincide com o divino.
O critério que os discípulos estavam usando não era o adequado. Estavam avaliando de forma extrema. Pensavam que fossem donos da verdade, por isso poderiam eliminar aqueles que não correspondiam a “sua verdade”.

2) “Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (v 56) – Acredito que a parte mais dura da repreensão é essa. A função de Cristo não era, nem é, destruir. O agente da destruição, Satanás, já faz a sua parte. Jesus veio para salvar, restaurar as vidas. Veio para levantar o caído, não para massacrá-lo de vez.
A função da igreja não é destruir. A função dos discípulos de Cristo, seus seguidores e imitadores, também não é destruir. Se assim agirmos, estaremos seguindo os passos de outro mestre, o mestre do mal, o destruidor (Jo 10.10).

IV - Conclusão

Nessas considerações sobre o zelo de homens de Deus na Bíblia, vimos o zelo mal. “O zelo do tolo o mata!” Não é o zelo por si só, mas o zelo do tolo. O tolo é a pessoa de pouca inteligência, não sabe discernir; é facilmente enganada. É “uma pessoa que não criou juízo discriminador quanto ao que é certo ou errado.”

Zelo sem conhecimento é perigoso! Precisamos conhecer Deus através da sua Palavra!
Não podemos deixar que nosso zelo humano nos torne destruidores.
Que nosso zelo não seja auto-destrutivo, como quase estava sendo o zelo de Elias.
Que nosso zelo não tenha o poder de destruir aqueles que não se enquadram em nossas regras.
Que ele não distorça nossa função...

Tenhamos o mesmo sentimento de Paulo:

"Portanto, escrevo estas coisas, estando ausente, para que, estando presente, não venha a usar de rigor segundo a autoridade que o Senhor me conferiu para edificação e não para destruir." (2Co 13.10, negrito meu)

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Celson Coêlho
Editor do Blog


(reprodução autorizada desde que mantida a integridade do texto, mencionado o autor: Celson Coêlho e o blog: www.ebqrecife.blogspot.com)

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