sexta-feira, 12 de setembro de 2008

PASTORES E CRENTES NO DIVÃ

Entrevista com Gina Strozzi

Para ler esta entrevista você terá que abdicar de preconceitos antigos do tipo “psicólogo é para loucos”, “a psicologia vai te fazer perder a fé” ou ainda “os psicólogos são liberais e acham que tudo é normal”.

Já há algum tempo a psicologia e fé não são mais consideradas campos opostos. Quem ganha com isso? Principalmente os crentes que necessitam de ajuda que vai além do aconselhamento e podem ser encaminhados para um tratamento mais adequado e profissional.

Quem fala conosco sobre isso é Gina Strozzi. Ela é graduada em Psicologia e Teologia com Mestrado e Doutorado pela PUC de São Paulo. Atualmente leciona na Universidade Mackenzie. Entre outras afirmações ela alerta “Qualquer cuidador ou pastor precisa se dispor a ser cuidado”.

A fé e a psicologia podem ser amigas? Não estariam elas em campos opostos?

Gina - A distância entre elas se estabelece na presunção de respostas absolutistas de uma sem a cooperação da outra. Ou ainda, de uma em detrimento à outra. Uma “psicologia” que pratica a fé, fundada no Evangelho, por exemplo, eu a chamaria de psicoterapia interparticipativa e confrontacional. Defendo as abordagens interdisciplinares. Acredito na justaposição dos saberes. Esquizofrênicos, de um grau ou outro, todos nós somos. Pode-se até não ver coisas ou ouvir vozes, porém, o elemento de falsificação do real habita as mentes de todos nós. Sim! Nossas mentes são desconfiadas e cheias de impressões falsificadas. Pensamos coisas sobre os outros que não são reais e interpretamos a vida com critérios de uma subjetividade que raramente casa com os fatos reais da existência. É assim que o tímido é visto como arrogante silencioso, o falante é percebido como metido, o quieto é olhado como fraco, o prestativo enxergado como interesseiro, o recluso como anti-social, o triste como infeliz, o belo como bom, o feio como mal e o simples como tolo. De fato quem se entrega à sua própria “disposição mental”, acaba enlouquecendo dentro do padrão social aceitável da loucura, mas nem por isto fica livre de ver, ouvir, pensar e interpretar de modo equivocado a vida e o próximo. Dito isto, a questão é: Quem nos ajudaria a nos ver como realmente somos? Os crivos da subjetividade lançados pela psicologia, ou a Cruz e a Palavra da Verdade? Ou ainda, quais das duas não nos põem numa vereda de ilusões?

O pastor e o psicólogo devem trabalhar juntos? Quais os limites de atuação de cada um na sua visão?

Gina - Uma equipe com diferentes olhares é sempre bem-vinda, porém, não podemos tolerar abusos como o exercício ilegal da profissão. Um psicólogo não pode cobrar para atender, se o negócio dele é “pregar”. Lembrando que existem muitos pastores que são também psicólogos. A missão de um psicólogo é ajudar as pessoas a se enxergarem e não a de enxergar por elas. O pastor domina um discurso, o psicólogo não, ele trabalha sobre o discurso do paciente. Quando se invertem os papéis pode ser perigoso. Ao psicólogo constitui função privativa a utilização de métodos e técnicas psicológicas para: diagnóstico psicológico; orientação e seleção profissional; orientação psico-pedagógica; e solução de problemas de ajustamento. São atribuições próprias que não devem ser exercidas por outro profissional.

E quanto ao psicoterapeuta, psiquiatra e psicanalista? De que forma estes profissionais podem apoiar o trabalho de um pastor?

Gina - Apesar da formação diferente, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas têm um objetivo comum: o bem estar psíquico, seja pelo uso de terapias ou com a prescrição de medicamentos pelo psiquiatra. É comum que a (nem sempre fácil) decisão de procurar auxílio psicológico venha acompanhada de dúvidas sobre qual profissional escolher. Informar-se sobre a formação e as atribuições destes profissionais, garantindo ética e qualidade no serviço oferecido, ajudam a assegurar um tratamento adequado ao problema e às necessidades de cada um. Em geral os profissionais de saúde mental seguem um modelo ampliado que inclui aspectos culturais, psicológicos, comportamentais e sociais, ao lado dos biológicos. Esses profissionais observam e atuam na dinâmica existente entre a equipe de saúde, o paciente, seus familiares e seus líderes religiosos, contribuindo para o equacionamento dos transtornos relacionais. A intenção de qualquer um deles é promover a integralidade e a integração dos cuidados.

Aconselhamento e terapia dão o mesmo resultado? Qual a diferença?

Gina - O aconselhamento é para indicação feita aos sujeitos que necessitam de uma orientação sobre uma situação que não inclui aspectos de saúde mental. Ou seja, o aconselhamento é de caráter não terapêutico. Já a psicoterapia praticada por um psicólogo constitui-se como um processo científico, devendo ser utilizados métodos e técnicas psicológicas reconhecidos pela ciência, pela prática e ética profissional. Têm como fim promover a saúde mental e propiciar condições para o enfrentamento de conflitos e/ou transtornos psíquicos de indivíduos ou grupos. Alguns tipos de terapia, dentre outros, são: terapia individual, de casal, em grupo, ludo-terapia, terapia sexual e terapia psico-motora.

Em que momento um pastor deveria encaminhar uma ovelha para um psicólogo? E para um psiquiatra? Os próprios pastores devem procurar este tipo de atendimento?

Gina - Logo que percebe que sua disposição em aconselhar não será suficiente para estabelecer o bem-estar do sujeito, vendo que este necessita de um diagnóstico preciso e de um tratamento. O crente que é desmotivado a fazer um tratamento psicológico em geral usa toda a sorte de inseguranças e mecanismos de barganha para com a fé. E mais, nitidamente sabemos que mecanismos de auto-afirmação expressam-se como legalismos, modismos, fantasias, moralismos, e um surto freqüente de megalomania. E, sim, muitos pastores necessitam de tratamento, são em geral pacientes que sofrem com complexos de onipotência, angústias com neurose culposa e paranóias persecutórias. Qualquer cuidador ou pastor, precisa se dispor a ser cuidado.

Ainda existe o conceito de que “psicólogo é para loucos”? Preconceitos como esses dificultam a relação crente-psicólogo?
Gina - Não só, mas também já ouvi coisas do tipo: “psicólogos são liberais e vêem tudo como normal”. Esta não é uma verdade, pois, ao psicólogo é vedado dentre outras coisas a “induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais”, segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo. Assim, nós psicólogos devemos atuar segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a não-discriminação e a promoção e bem-estar das pessoas e da humanidade.

(Entrevista extraída na íntegra e com autorização de Instituto Jetro http://www.institutojetro.com.br/, acesso realizado em 26/08/2008 às 20:55h)

1 comentários:

Juliano disse...

Parabéns pela sua sabedoria, Gina!!!
Que a cada dia o Senhor possa abençoá-la.
Sou estudante de Psicologia e Cristão.
Vejo que em dados momentos, uma coisa complementa a outra, porém de forma não conflitante e antiética.
Pastores precisam reconhecer que não são super homens e se entregarem ao cuidado de um cuidador profissional.
Abraços para você.

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Celson Coêlho