segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

PROBLEMAS DE VISÃO, reflexão no capítulo 9 de João

(imagem:diariode1grandeamor.blogspot.com)

*Por Celson Coêlho
“Eu era cego e agora vejo.” (Jo 9.25)
Quando observamos determinado fato, sempre vemos por uma ótica preconcebida. São nossos preconceitos. Sejam os mais simples ou mais extremos. Quando 5 pessoas olham um mesmo fato, possivelmente estarão entendendo de 5 formas diferentes. Nossa maneira de entender o mundo depende de nossas experiências vividas, dos ensinos e tradição recebidos e dos princípios defendidos.
Se começarmos a falar de João 9 perguntando quantos cegos temos no relato, logo dirão: - Sem dúvida, temos um cego. A literalidade do texto mostra isso. Entretanto, esta pergunta deve ser respondida a partir de outra pergunta: que tipo de cegueira estamos falando?
Nesse texto, encontramos ao menos 4 tipos de cegueiras. Vejamos...

Cegueira Física: esta é bem explícita a uma leitura superficial do texto: “CEGO DE NASCENÇA” (Jo 9.1). É a falta de visão física. Não ver as cores, os formatos; não perceber as imagens. O ser humano percebe o mundo em sua volta por meio dos 5 sentidos do corpo: visão, audição, olfato, paladar e tato. Tornamo-nos totalmente dependentes de um dos sentidos, a visão. Ela é a que mais traz influência nas pessoas. Os “marketeiros” sabem disso. Nas propagandas usam de bastante apelo visual. Nós compramos o que vemos, não o que precisamos. A pessoa cega aprende a viver sem essa dependência. Ela aguça os outros sentidos. Por isso, tem a audição e o tato mais desenvolvidos.
Esta cegueira serve como pano de fundo das outras cegueiras que se apresentam no texto.

Cegueira Doutrinária: no 2º versículo encontramos o 2º tipo de cegueira. “MESTRE, QUEM PECOU, ESTE OU SEUS PAIS, PARA QUE NASCESSE CEGO?” (9.2) Não foi necessário ir muito longe para encontrarmos a cegueira doutrinária. Ela se apresentou nos próprios discípulos de Jesus. O Antigo Testamento deixa claro que a responsabilidade do pecado é pessoal (Leia Jr 31.27-40; Ez 18.1-4; Dt 24.16). Não passa de pai para filho. Pensaremos e agiremos conforme as doutrinas que aprendemos. A teoria nos leva a prática. Nesse sentido, gosto do exemplo do atentado de 11 de setembro de 2001. Ao destruírem as torres gêmeas, os terroristas estavam seguindo a doutrina de sua religião. A doutrina que eles aprenderam levou aquela prática. No exemplo do atentado terrorista, tínhamos homens com boa formação. Não eram ignorantes no âmbito humano. Seguiram sua doutrina...

Cegueira da Tradição: Tradição é o que se sabe por uma transmissão de geração em geração. Por si a tradição não é ruim. Porém, deve-se avaliar sua validade. A tradição judaica ensinava que no sábado não poderia trabalhar, nem para salvar uma vida. É verdade que o sábado era um preceito da Lei, mas eles haviam mudado seu entendimento. Jesus cumpria a Lei, enquanto orientação divina (Mt 5.17). Os rabinos haviam compilados interpretações da Lei (Torá; Pentateuco). Essas interpretações se tornaram mais importantes que a própria Lei divina. Jesus rejeitava esse tipo de tradição (ver Mc 7.9, 13; Mt 15.3) “ERA SÁBADO O DIA EM QUE JESUS FEZ O MILAGRE E LHE ABRIU OS OLHOS... POR ISSO ALGUNS DOS FARISEUS DIZIAM: ESTE HOMEM NÃO É DE DEUS, PORQUE NÃO GUARDA O SÁBADO.” (Jo 9.14 e 16) Uma má tradição pode engessar nossa prática; cegar nossa visão. Eles não acreditaram no milagre por causa da tradição (Jo 9.18). (Observação: as interpretações da Lei criadas pelos rabinos eram chamadas de Mishnah, Midrash e Talmude. Veja ao final do texto um link para esclarecimento dos seus significados)

Cegueira do Medo: “ISTO DISSERAM OS PAIS PORQUE ESTAVAM COM MEDO DOS JUDEUS” (Jo 9.22). Não é problema termos medo, somos humanos; somos suscetíveis a isso. O que não pode acontecer é sermos dominados pelo medo, escravizados. Os pais do jovem foram chamados para confirmarem o milagre (Jo 9.18). Eles fogem da pergunta “como [ele] vê agora?” O medo não os permitiu confirmarem o milagre feito por Jesus. Os pais não puderam confirmar os efeitos da “luz do mundo” (Jo 9.5). É interessante que no começo do capítulo 9 tentam relacionar a situação do filho com aquilo que os pais fizeram (Jo 9.2). Agora, os pais são convocados para testemunharem sobre a atual situação do filho. Eles retrucam: “perguntai a ele, idade tem; falará de si mesmo.” (Jo 9.21) Todo pai tem prazer em ver seu filho bem. Assim ocorreu com um oficial do rei em Caná da Galiléia (Jo 4.46-54). O mesmo rogou que Jesus curasse seu filho e acreditou na “luz do mundo”. O pai do jovem possesso também teve a mesma confiança e alegria (Lc 9.37-43). Os pais do cego não demonstraram esse mesmo sentimento. Foram encurralados pelo medo.
O ex-cego fora interrogado quatro vezes. Os fariseus queriam que ele próprio negasse ter recebido o milagre; negasse a ação da “luz do mundo”. Os acusadores queriam que o ex-cego rejeitasse a luz e aceitasse sua visão (ou falta dela): Diga que ele [Jesus] é pecador (Jo 9.24). Aceite meu ponto de vista! Aceite minha visão!
Na verdade, em cada um desses tipos de cegueira, é tentado passar sua visão do fato para a outra pessoa. Primeiro os discípulos tentam passar sua visão do fato para Jesus: “quem pecou, esses ou seus pais?” (v2); Depois vemos os fariseus empurrando sua visão: “esse homem [Jesus] não é de Deus” (v16). Eles repetem no verso 24; Os pais também vendem sua visão do fato: “Não sabemos como vê agora; ou quem lhe abriu os olhos também não sabemos.” (Jo 9.21)

Neste empurra-empurra de visão dos fatos, dois personagens não aceitam as visões preconcebidas. Jesus e o ex-cego. O realizador e o recebedor do milagre.Jesus afirmou: “Eu sou a luz do mundo” (v5).
O Cego foi categórico: “Se ele é pecador, não sei; uma coisa eu sei: eu era cego e agora vejo.” (v25) Em outras palavras: - “Se na visão de vocês ele é pecador, não estou nem aí. Eu fui alvo do milagre, recebi a luz do mundo e agora vejo.”

Nem sempre a cegueira física é a pior das cegueiras!


(Reflexão compartilhada na Manhã de Oração no domingo, dia 17/10/10, antes da EBQ na IEQ Sede Recife; reprodução autorizada desde que mantida a integridade do texto, mencionado o autor: Celson Coêlho e o blog: http://www.ebqrecife.blogspot.com/)

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TALMUDE (AQUI)

Celson Coêlho
Diretor DEBQ-PE
Editor do Blog

2 comentários:

edson bahia disse...

Tem que usar colirio, Apocalipse 3.18, é esta cegueira que atrofia o reino,,,

EBQRECIFE disse...

Olá Pr. Edson Bahia,
PAZ!
Agradeço sua visita e comentário em nosso Blog.
Que Deus continue abençoando sua vida, família e ministério na IEQ Belo Jardim.
Abraços...

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Celson Coêlho