sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

VOCÊ OUVIU O GALO CANTAR?



“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” Salmos 30:5

“Bendito seja aquele que deu inteligência ao galo, para distinguir o dia da noite” Sidur (livro de orações judaica)

*Por Celson Coêlho

Sou natural da terra que dizem ter o maior bloco carnavalesco de rua do mundo, o Galo da Madrugada. Amanhã é seu dia, sábado de carnaval. Mas não é desse galo que desejo falar...

Quero falar com você sobre o galo na cultura judaica. Com ênfase na liturgia.

O termo galo não ocorre no Antigo Testamento. No Novo, surge naquelas passagens sobre a negação de Jesus por Pedro (Mt 26.34; Mc 14.30; Lc 22.34; Jo 13.38) e em Marcos 13.35. Nestas ocasiões, temos referências ao “cantar do galo”.

A expressão “cantar do galo”, ou similares, tomou outro significado além da literal indicação do canto de uma ave. “Cantar do galo” virou referencial de uma das divisões da noite para os judeus. Antes do domínio romano, os judeus dividiam a noite em três vigílias (Sl 63.6 – “vigílias da noite”):
  • Do pôr do sol (18h) a meia noite;
  • Da meia noite ao “cantar do galo” (3h); e
  • Do “cantar do galo” ao amanhecer.
Após o domínio romano, a noite passou a ser dividida em quatro vigílias: “Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa; se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã.” (Mc 13.35) Mas ainda encontramos o “cantar do galo” como referência.

Comentando João 13.38, HULL nos esclarece: “O ‘cantar do galo’ era o nome dado a terceira vigília da noite (12h às 3h da madrugada). Jesus predisse, então, que a lealdade de Pedro não duraria até a manhã seguinte.” (pg. 384)

Temos a noite, quase senso comum, como metáfora de dificuldades. A noite é sinônimo de escuridão, solidão e sofrimento. A Bíblia faz uso dessa analogia: “... terror noturno” (Sl 91.5); “... a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (Jo 9.4b); “... porque, nela [na Nova Jerusalém], não haverá noite” (Ap 21.25).

Contrário à noite, temos o amanhecer como metáfora de bons tempos. São opostos por si. Nas analogias também: “Deus a ajudará, já ao romper da manhã.” (Sl 46.5b); “Sacia-nos de manhã com a tua benignidade.” (Sl 90.14).

Neste ponto recorremos à liturgia judaica como ilustração. No Sidur, livro de orações dos judeus, uma das orações exaltam a Deus pela “inteligência” que concedeu ao galo: “Bendito seja aquele que deu inteligência ao galo, para distinguir o dia da noite”. Está é uma oração para ser feita ao acordar, pela manhã. Expressa a gratidão por deixar a noite e voltar-se para o dia (a vida). Mas qual a inteligência do galo?

O canto dessa ave serve como referencial para o dia que surgirá. Para um novo amanhã. O “relógio funcional” do galo diz para ele que a noite está próxima de findar, mesmo sem ver a luz do dia. Aqui está a valorização do “canto do galo” na liturgia judaica: ele celebra a chegada do dia antes da noite findar. Ele sabe “distinguir o dia da noite” sem ver o dia.

O salmista Davi nos alerta:
O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” Sl 30.5

Servir a Deus não é sinônimo de não ter problemas. As intempéries da vida surgirão, mas temos uma certeza: a noite terá fim! Deus nos garante que a luz da manhã nos trará alegria. A escuridão, a solidão ou o sofrimento, por mais cruel que seja, terá fim.

Salmos 30 expressa a certeza do livramento do Senhor e a gratidão por isso:

"Exaltar-te-ei, ó SENHOR, porque tu me exaltaste; e não fizeste com que meus inimigos se alegrassem sobre mim.
SENHOR meu Deus, clamei a ti, e tu me saraste.
SENHOR, fizeste subir a minha alma da sepultura; conservaste-me a vida para que não descesse ao abismo.
Cantai ao SENHOR, vós que sois seus santos, e celebrai a memória da sua santidade.
Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.
Eu dizia na minha prosperidade: Não vacilarei jamais.
Tu, SENHOR, pelo teu favor fizeste forte a minha montanha; tu encobriste o teu rosto, e fiquei perturbado.
A ti, SENHOR, clamei, e ao Senhor supliquei.
Que proveito há no meu sangue, quando desço à cova? Porventura te louvará o pó? Anunciará ele a tua verdade?
Ouve, SENHOR, e tem piedade de mim, SENHOR; sê o meu auxílio.
Tornaste o meu pranto em folguedo; desataste o meu pano de saco, e me cingiste de alegria,
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. SENHOR, meu Deus, eu te louvarei para sempre."
(Sl 30.1-12; sublinhado meu)

Jó confiou no Senhor no auge do seu sofrimento:

Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.” Jó 19.25

Por que está abatida a tua alma, e por que te perturbas dentro de ti? Espera em Deus, pois ainda o louvarás, o qual é a salvação da tua face, e o teu Deus. (Sl 42.11 – adaptado para segunda pessoa)


CONSULTAS:
CALENDÁRIOS JUDAICOS: http://www.ufrgs.br/museudetopografia/Artigos/CALEND%C3%81RIOS_JUDAICOS_3.pdf, acesso em 17/02/12 às 16:15h

Estudo Bíblico sobre Noite: http://bibliotecabiblica.blogspot.com/2009/07/estudo-biblico-noite.html, acesso em 17/02/12 às 15:30h

SIDUR: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sidur, acesso em 17/02/12 às 16:50h

HULL, William E. Comentário Bíblico Broadamn (João). Rio de Janeiro: JUERP, 1983.


Celson Coêlho
Editor do Blog
ebqrecife@hotmail.com
Twitter: @celson_coelho

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"SUBA A BORDO SCHETINO!" (a responsabilidade de conduzir vidas)

*Por Celson Coêlho

A frase título deste texto tomou conta do noticiário recente. Ela expressou a ordem para que Francesco Schetino reassumisse o comando de seu navio. Está inserida no contexto do naufrágio do navio de cruzeiro Costa Concórdia, no dia 13 de janeiro deste ano. Com mais de 4200 pessoas a bordo, o transatlântico veio a pique por uma possível imprudência de seu comandante. No início do desastre, o comandante escolheu abandonar o barco, literalmente. Por isso, o chefe da guarda costeira local lhe ordenou: “Suba a bordo Shetino!”
Não estamos preparados para o desastre. Quase todos entram em parafuso. Contudo, não podemos nos mostrar covardes na adversidade. A fuga poderia ser esperada como atitude de todos, menos do comandante do navio. Os seus liderados aguardavam orientações. Os passageiros confiavam em procedimentos de emergência.
A tripulação de um navio não se escolhe do dia para noite. Ela é preparada. Treinada. Inclusive o comandante. Ele, normalmente, é o mais experiente a bordo. Nas simulações de emergência, em treinamento, espera-se por sua decisão. A questão é simples: não pode, em situação de desespero, várias pessoas tomarem decisões ao mesmo tempo. Quando se precisou do orientador, onde estava ele? A bordo do primeiro bote ao mar...

Conduzir vidas não é fácil! Envolve muita responsabilidade.
Não pensemos que é responsabilidade apenas de uns poucos. É do comandante do navio ou do avião. Mas também é do motorista do ônibus que tomamos. Da presidenta, governador ou prefeito, mas também do professor em sala de aula. Do gerente, diretor ou supervisor, na vida profissional, mas também do funcionário. Do pastor ou líder, na vida espiritual, mas também do pai de família e de cada indivíduo.
Conduzir nossas próprias vidas já é muita responsabilidade, imagine conduzir vidas de outros...


RESPONSABILIDADE INDIVIDUAL
Jesus salientou a responsabilidade individual com a própria vida. Em Lucas 12.20, após parábola reprovando a avareza, vem a pergunta em tom de alerta: “Louco, esta noite pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?
Este é o ensino da prestação de contas. “Cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus.” (Rm 14.12) A Bíblia está repleta de passagens que revelam este ensino:

  • Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos em lugar dos pais; cada qual será morto pelo seu pecado.” – Dt 24.16
  • Embora haja eu, na verdade, errado, comigo ficará o meu erro.” – Jó 19.4
  • Naqueles dias, já não dirão: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que embotaram. Cada um, porém, será morto pela sua iniquidade; de todo homem que comer uvas verdes os dentes se embotarão.” – Jr 31.29 e 30
Estas verdades jogam por terra o ensino nocivo da maldição hereditária. Esta tenta dissolver a responsabilidade individual pelos atos. Todos, com suas faculdades normais, são responsáveis perante Deus pelos seus atos; por sua vida.


RESPONSÁVEL POR OUTROS: BÔNUS E ÔNUS
Comandante para todos os momentos

Francesco Schetino tinha grande honra por ser comandante daquele navio. Ter pessoas sob sua autoridade é honroso. O centurião não escondeu essa verdade ao conversar com Jesus: “Porque também sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens, e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto e ele o faz.” (Lc 7.8)
O que muitos esquecem é que o bônus da autoridade é atrelado a seu ônus. É honroso construir uma família, mas tem seu ônus. Honrado também é aquele que dirige uma empresa, contudo a cobrança não é menor.
Aquele que atenta apenas para o que pode lucrar (o bônus), a Bíblia designa de mercenário (Jo 10.12 e 13). Mercenário (grego misthotos) é o trabalhador assalariado. Trabalha por um pagamento. Na Bíblia na Linguagem de Hoje encontramos: “O empregado [mercenário] foge porque trabalha somente por dinheiro e não se importa com as ovelhas.” (Jo 10.13)
“O mercenário não tem más intenções, como o ladrão e o salteador [Jo 10.1], mas não tem interesse pessoal pelas ovelhas do pastor verdadeiro. Ele toma conta delas em troca do seu salário; ele faz sua obrigação muito bem em tempos normais, mas quando há perigo ele está mais preocupado com sua segurança do que com a das ovelhas. Ele não se disporá a arriscar sua vida para defendê-las do lobo que as espreita, como o pastor de verdade.” (BRUCE, pg 197)
A Bíblia de Estudo de Genebra ressalta: “Jesus torna mais nítida a figura contrastando seu serviço sacrificial com o covarde abandono das ovelhas por aqueles que são motivados por interesse próprio. Ladrões roubam as ovellhas; o mercenário abandona as ovelhas; Cristo da a sua vida pelas ovelhas.” (pg 1248)

Em relação a ter pessoas sobre nossa responsabilidade no ministério, Hull comenta o capítulo 10 de João: “Todos que contavam com o bem estar espiritual dos outros deveriam suportar a sóbria verdade de que “daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá” (Lc 12.48) [pg 355]

Não adianta abandonar o barco... Se assumiu o comando do navio, é para o bônus e para o ônus. Em águas tranquilas e em possível naufrágio. Na honra e na cobrança.
“Suba a bordo Schetino” significa: reassuma sua posição, volte a comandar. A responsabilidade é sua, estão esperando por você.


QUAL CAMINHO SEGUIR?

Como conduzir vidas de forma sadia? Com sabedoria.
Josadak Lima define sabedoria como “a capacidade de distinguir entre bem e mal, verdade e mentira, coisas importantes e inúteis, e de tomar decisões apropriadas segundo os padrões corretos.” (Sabedoria: espiritual e vivencial, pg. 10)
A Bíblia nos diz que “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança.” (Tg 1.17) Deus é sábio (Rm16.27). Tendo falta de sabedoria, peçamos a Deus que é generoso e concederá sabedoria a todos que pedirem (Tg 1.5).

Salomão é conhecido como um dos homens mais sábios da história. Sua sabedoria é descrita de forma resumida em 1ºReis 4.29-34. Porém, ele não foi sempre assim. Ao ser instituído rei, Salomão não se esquivou de sua responsabilidade. Diante de Deus, reconheceu que era inexperiente (“não passo de uma criança” - 1Rs 3.7), que o trabalho era árduo (“povo grande, tão numeroso” - 1Rs 3.8) e que precisava do Senhor para orientá-lo (“dá ao teu servo coração compreensivo para julgar a teu povo” - 1Rs 3.9). O coração de Salomão, humilde e desejoso de sabedoria, agradou ao Senhor (1Rs 3.10).

Jetro identificou o grande problema que outro líder, Moisés, teria para conduzir o povo: “Que isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até o pôr do Sol?[...] Não é bom o que fazes. Sem dúvida desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo; pois isto é pesado demais para ti; tu só não podes fazer.” (Ex 18.15,17 e 18) O que temos registrado até o verso 27 é a base da boa liderança:
  • Depender de Deus – Ex 18.19 e 23;
  • Orientar o povo conforme a Palavra de Deus – verso 20;
  • Humildade para ouvir conselhos de pessoas sábias e guiadas por Deus – v 19a e 24;
  • Confiar em pessoas tementes a Deus e delegar-lhes tarefas – v 21, 22 e 25;
  • Não se esquivar da sua responsabilidade (maior que a dos outros) – v 19b, 22 e 26.
Moisés seguiu esses passos e foi grande líder!
Tomemos o conselho de Paulo a Timóteo:
“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás a ti mesmo como aos teus ouvintes.” (1Tm 4.16)

BIBLIOGRAFIA
Bíblia de Estudo Palavras Chave hebraico e grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2011;
Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo: Cultura Cristã, 1999;
BRUCE, F. F. João. São Paulo: Vida Nova, 1987;
GILMER, Thomas L; JACOBS, Jon; e VILELA, Milton. Concordância Bíblica Exaustiva. São Paulo: Vida, 1999; e
HULL, William E. Comentário Bíblico Broadamn (João). Rio de Janeiro: JUERP, 1983.

Celson Coêlho
Editor do Blog
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