sábado, 24 de março de 2012

O QUÊ É SIMONIA? ONDE ESTÁ ANSELMO DE CANTUÁRIA?

*Por Celson Coêlho

Estava lendo o livro Fundamentos da Teologia Histórica, de Alderi Souza de Matos, quando me deparei como o termo simonia. Na verdade já o lera antes, mas não com a atenção que agora me ocorreu.
Recorri a alguns livros sobre história da teologia e da igreja em minha estante e colhi algumas informações. O arrazoado encontra-se nesta postagem.

A HISTÓRIA DA IGREJA NOS ENSINA

O termo não é tão comum, mas encontra-se num simples dicionário de português: “negócio, tráfico de coisas sagradas” (Minidicionário Ruth Rocha, 12ª Ed. 2007). Alderi Souza nos esclarece melhor: “comércio de cargo eclesiástico.”(p. 110) Para CAIRNS, simonia significava “a prática de comprar e vender cargos eclesiásticos por dinheiro.”(p. 163) W. Walker, outro historiador eclesiástico, afirma que “o termo designava a concessão ou aceitação de cargo clerical mediante pagamento em dinheiro, ou alguma compensação menos digna.”(pg. 286) Contrário a esse movimento, diz WALKER, surgiram reformadores que “desejavam um clero digno, designado por motivos espirituais.”(p. 287)

OLSON alerta que era comum entre “os reis da Inglaterra, a partir de Guilherme, o Conquistador, tentar controlar a igreja com a nomeação de bispos.”(p. 324)

CHAMPLIN joga mais luz sobre o termo:
“Esse termo indica a venda de ofícios e cargos eclesiásticos, ou a compra de privilégios, prestígio e ofícios religiosos, com o acompanhamento natural da negligência do exame que busca ver se o candidato está qualificado ou merece as posições assim obtidas.”(p. 281)
CHAMPLIN ainda contribui sugerindo que a expressão deriva-se do relato de Atos 8.9-24, quando Simão, o Mágico, tentou comprar o dom do Espírito Santo. (Esse também é o entendimento de W. Walker ao sugerir essa passagem de Atos como nota de rodapé referenciando o termo simonia, p. 286)


O RELATO BÍBLICO, At. 8.9-24

Os comentaristas bíblicos pesquisados também concordam que o termo simonia surgiu do relato sobre Simão, o Mágico.

Simão era considerado o “poder de Deus, chamado o grande poder.”(At 8.10) LADD nos diz que a palavra “grande”, usada pelos gregos, procurava designar o Deus judeu.(p. 256) Filipe, ao surgir pregando com sinais (At 8.4 e 13), expulsando demônios (At 8.7) e realizando milagres (At 8.7 e 13), torna-se um concorrente para aquele que iludia o povo (At 8.9). Assim, Simão não quer ficar de fora desse novo movimento (At 8.13).

Simão, ao ver Deus operar através do ministério de Pedro e João, “ofereceu-lhes dinheiro, propondo: concedei-me também a mim este poder...”(At 8.18 e 19) Ele não desejou receber o Espírito, antes, cobiçou ter o poder de conceder o Espírito a outros. Talvez pensando que o poderia lucrar com esta prática.

Atentemos ao alerta de MARSHALL:
“O que se ressalta [em At 8.18 e 19] é seu desejo pecaminoso de possuir poder espiritual por razões erradas e de obter aquele poder pelo método errado. A possessão de qualquer tipo de autoridade espiritual é uma responsabilidade solene mais do que um privilégio, e aquele que a possui deve ter consciência constante da tentação para dominar sobre aqueles por cujo bem-estar espiritual é responsável; deve também precaver-se contra o perigo de empregar sua posição para seus próprios interesses, seja como modo de fazer dinheiro ou inchar seu próprio ego (1Pe 5.2 e 3)” [p. 154]
Nossa atenção também deve estar no exposto por KISAU: “É fácil condenar Simão, o mágico, por tentar comprar o poder de Deus (8.18-19). Por vezes, contudo, cometemos o mesmo erro ao imaginar que nossos atos ou ofertas nos podem tornar mais aceitáveis diante de Deus.”(p. 1347)

E Pedro e João, como se comportaram diante da “oferta” de Simão?
Pedro foi o porta-voz da resposta: “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgastes adquirir, por meio dele o Dom de Deus.”(At 8.20) Triste quando o homem chega ao nível de acreditar que pode comprar o Dom de Deus... A Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH) é mais direta ao expressar esta condenação: “Que Deus mande você e seu dinheiro para o inferno!”(At 8.20) Esse seria o destino de Simão se não mudasse sua atitude com relação às coisas divinas. Pedro continua no verso 21: “Não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus.” Lhe faltava “reto coração”. Esta é a característica da boa terra na Parábola do Semeador: “A que caiu na boa terra são os que, tendo ouvido de bom e reto coração retêm a palavra; estes frutificam com perseverança”(Lc 8.15; destaque meu) Esta não era a característica de Simão, o Mágico, nem de qualquer um que tenta negociar o Dom de Deus...


QUEM ERA ANSELMO DE CANTUÁRIA?

Nasceu em Aosta, na Itália. Foi zeloso por Deus e pela religião. Estudou no mosteiro de Bec na Normandia, França. Justo Gonzáles o considera o maior teólogo de seu tempo (in OLSON, p. 323). “A contribuição mais importante de Anselmo para filosofia e teologia é sua prova da existência de Deus, conhecida como argumento ontológico.”(MATOS, 110; destaque original)

Anselmo concedeu outras contribuições à teologia de sua época, como também sofreu sob as limitações dessa teologia. MATOS destaca que, além da teologia, Anselmo contribuiu para vida da igreja lutando contra a simonia. Foi contra a qualquer tipo de negociação de cargos eclesiásticos.

A segunda pergunta no título desta postagem na verdade significa: “onde estão os homens de Deus que não concordam com a negociação de cargos no seio da igreja?”
Onde estão homens como Anselmo, mas também onde estão homens semelhantes a Pedro e João que não aceitaram a oferta de Simão?

“A igreja precisa aprender com o erro de Simão e seguir o exemplo de Pedro, recusando-se a transigir por dinheiro.”(KISAU, p. 1347)

Esta também foi a atitude de Eliseu, quando Naamã tentou oferecer “um presente” pela cura da lepra. O profeta entendeu que o reconhecimento da grandeza do Deus de Israel era mais importante que o presente de Naamã.(2Rs 5.15 e 16) Geazi, auxiliar do profeta, aceitou e sofreu consequências.(2Rs 5.19-27)

Também fora feita uma oferta a Daniel: roupa de púrpura, corrente de outro e ser 3º em autoridade no reino. A sua resposta foi: “Os teus presentes fiquem contigo, e dá os teus prêmios a outrem.”(Dn 5.16 e 17)

Jesus orientou aos doze que exercessem com autoridade o ministério, porém, alertou-lhes: de graça recebeste, de graça dai. (NTLH: vocês receberam sem pagar, portanto dêem sem cobrar - Mt 10.8)

REFERÊNCIAS

1) LADD, George E. COMENTÁRIO BÍBLICO MOODY. Editora Batista Regular. 1999.
2) KISAU, Paul Mumo. ATOS DOS APOSTÓLOS in Comentário Bíblico Africano. Mundo Cristão. 2010.
3) MARSHALL, I. Howard. ATOS: introdução e comentário. Mundo Cristão e Vida Nova. 1982.
4) MATOS, Alderi Souza de. FUNDAMENTOS DA TEOLOGIA HISTÓRICA. Mundo Cristão. 2008.
5) OLSON, Roger. HISTÓRIA DA TEOLOGIA CRISTÃ. Vida. 2001.
6) CHAMPLIN, R. N. e BENTES, J. M. ENCICLOPÉDIA DE BÍBLIA, TEOLOGIA E FILOSOFIA. Candeia. 4ª Ed. 1997.
7) SMITH, T. C. ATOS in Comentário Bíblico Broadman. JUERP. 3ª Ed. 1994.
8) WALKER, Williston. HISTÓRIA DA IGREJA CRISTÃ. JUERP e ASTE. 4ª Ed. 1983.

 
*Celson Coêlho
Editor do Blog

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Celson Coêlho