quinta-feira, 4 de abril de 2013

O QUE SIGNIFICA "LANÇAR SORTES" EM ATOS 1.26?

*Celson Coêlho


O que significa “lançar sortes” conforme registrado em Atos 1.26?
(Este questionamento foi levantado por uma irmã. Compartilho abaixo o entendimento bíblico sobre o tema)
O termo “lançar sortes” não tem outro paralelo na vida da igreja conforme registrado no Novo Testamento. Seu uso é mais regular no Antigo Testamento pelo povo de Israel, mesmo assim não fica claro o que seria.
Para nossa edificação vamos ver os ensinamentos que podemos extrair de Atos 1.26 sobre o “lançar sortes”. Depois veremos alguns textos do Antigo Testamento para esclarecer seu uso pelo povo de Israel. Nesse segundo momento faremos uso de fontes secundárias (comentários bíblicos e afins).

I – O QUE ESTÁ ACONTENCENDO EM ATOS 1.26?
O registro da expressão “lançar sortes” nos assusta, pois nos faz lembrar algo que está ao acaso. Semelhante a concordar com a afirmação: “É o destino. Tinha que ser assim.”
O contexto de Atos 1.26 é o da escolha do novo apóstolo para o lugar de Judas Iscariotes. Isso ocorre do verso 15 ao 26. Vejamos o que aprendemos com o relato desse fato:
1) Deus é o Senhor da História - Isso é revelado ao relacionar o acontecido com o que está registrado nas escrituras: “Porque está escrito no livro dos Salmos” (Atos 1.20). Em outras palavras: “Está acontecendo o que Deus disse que iria acontecer, conforme registrado no livro de Salmos.” O que está acontecendo não está ao acaso. Deus está no controle. O desejo dos apóstolos é que a vontade de Deus se cumpra nessa escolha: “Revela-nos qual desses dois tens escolhido” (Atos 1.24). Eles conheciam Provérbios 16.33: “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão.”
2) Critérios Estabelecidos - A possibilidade de acaso é descartada quando também vemos a seriedade dos critérios estabelecidos: “É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando com o batismo de João, até o dia que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição” (Atos 1.21 e 22). O substituto de Judas teria que fazer parte dos que testemunharam o ministério de Jesus, desde o batismo dEle por João Batista até sua ascensão. Inclusive, sendo testemunha da sua ressurreição. Quando os discípulos “lançam sortes”, não esperam o acaso. Esperam que Deus cumpra sua vontade, pois a capacidade humana para escolha tinha se esgotado pelo estabelecimento dos critérios. A partir daí é a vontade de Deus. Ou seja, o critério conclusivo é a indicação de Deus: “revela-nos qual destes dois tens escolhido.” (Atos 1.24)
3) A Vontade de Deus Buscada em Oração – Eles estavam orando (Atos 1.24). A vontade de Deus estava sendo buscada acima de tudo em oração. Eles não esperavam pelo acaso. Criam num Deus que ouve a oração daqueles que o buscam. O ambiente é de oração perseverante e unânime (Atos 1.14).
O que está acontecendo em Atos 1.26 é a busca da vontade de Deus. Os apóstolos não estão à espera do acaso.
  
II – O COSTUME JUDAICO
“O método empregado pelos judeus era o de colocar os nomes escritos em pedras dentro de um vaso, e sacudi-lo até que uma pedra caísse.” (Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Editora Vida Nova, pg 195)
Na verdade esse costume era comum no povo do antigo Oriente. Contudo, o ocorrido em Atos 1.26 foi devido ao costume judaico.
O método foi usado por Arão no dia da Expiação (Lv 16.7-10). Na divisão da terra de Canaã (Js 14.1 e 2). Para designar os deveres do serviço no templo (1Cr 25.8). Também é possível que, inicialmente, o uso de Urim e Tumim pelo sacerdote fosse um tipo de “tirar a sorte” (Leia Ex 28.30; Nm 27.21 e Dt 33.8).
Vejamos o que diz os comentaristas sobre o assunto:
Sobre Êxodo 28.30:
“Talvez valha a pena observar que o oferecer sacrifícios não era, de maneira alguma, a única função do sacerdote israelita. Como observa Driver, a ele cabia dar “Torah” ou instrução (Ex 33.10), decidir por meio de Urim e Tumim (como aqui), e oferecer decisões judiciais ‘perante Deus’ no santuário (Dt 22.8,9). Além do mais, Urim e Tumim não eram a única maneira aceitável de se pedir orientação divina, mesmo no começo da história de Israel (1Sm 28.15). Podemos presumir que, à medida que crescia a atividade profética em Israel, a necessidade de se recorrer a tais meios ‘mecânicos’ de orientação diminuiu. Na Nova Aliança, não é por acaso que, depois da vinda do Espírito (Atos 2), o uso de ‘sortes’ não mais acontece. Deus guia seu povo diretamente.” (COLE, R. Alan. Êxodo, introdução e comentário. Vida Nova. 1980. pg 195. Sublinhado meu)
Sobre Numero 27.21:
“Assim a época de Moisés era bem diferente do período seguinte. Naquela época Deus se fizera conhecer diretamente através de Moisés, um mediador profético; as gerações teriam que confiar nos sacerdotes, os mestres da lei que tinham autoridade para ensinar (Lv 10.10,11). Quando era necessária a direção em assuntos políticos ou militares não abrangidos pela lei, os sacerdotes podiam usar Urim e Tumim como espécie de oráculo.” (WENHAN, Gordon J. Números, introdução e comentário. Vida Nova. 1985. pg 203. Sublinhado meu)
Mesmo no costume judaico fica claro que o uso de tais meios não era independente da vontade divina. Não fica muito claro como era seu uso. Contudo, sua freqüência era mínima. O uso de sortes não se caracterizava como principal meio da vontade divina e não era usado independente de outros meios. Conforme a história de Israel prossegue, Deus substitui o uso de sortes pela atividade do sacerdote, pela orientação da “Torah” (o ensino da lei) e pela atividade profética.
Como devemos buscar a vontade de Deus?
Devemos buscá-la através de conhecer a Jesus. “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 1.1,2)
Jesus é a palavra viva de Deus. Podemos conhecê-lo melhor através da Bíblia e da oração. Assim, estaremos andando nos caminhos desejados por Deus para nossas vidas.

*Celson Coêlho
Editor do Blog

(reprodução autorizada desde que mantida a integridade do texto, mencionado o autor: Celson Coêlho e o blog: http://www.celsoncoelho.blogspot.com)
 

2 comentários:

Thiago Augusto disse...

Excelente explicação. Que Deus continue te abençoando e te capacitando cada dia mais. Abraços!

Celson Coêlho disse...

Paz Thiago!
Obrigado pela visita e comentario.
Contamos com sua oração e divulgação.

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Celson Coêlho