quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

SIFRÁ E PUÁ, VOCÊ JÁ VIU ESSES NOMES?


Por Celson Coêlho

Se já é porque ou tem boa memória ou alguém te alertou em alguma ocasião. Porém, muitos, se não todos, estão em uma 3ª opção: nunca viram nomes tão estranhos...

Com certeza você, igual a mim, já passou por esses nomes e os achou insignificantes. Nem vimos que estava ali. Somos assim! Estamos à procura dos grandes heróis e dos grandes feitos. Até porque também desejamos ser grandes e fazer grandes coisas.

Esses nomes estão no meio de grandes nomes. Na descrição de grandes nações, uma consolidada e outra nascendo. Na origem de um destacado feito.

A ação dessas mulheres e seu registro revelam que existe agir de Deus de modo simples e sem alarde. E talvez essas ações sejam as mais significativas.

Sifrá e Puá estão agindo no início do livro do Êxodo (Ex). Os grandes ali são José, que acabara de morrer, e Faraó (um título), que desconhecia a importância de José. As grandes nações eram Israel, se tornando populoso e na iminência de se tornar uma nação, e o Egito, com grande poderio bélico, mas incomodado com a multiplicação dos filhos de Israel. O grande feito é o Êxodo deste povo, sua saída da escravidão do Egito. Registrada no decorrer do livro e que sinaliza princípios da historia da salvação.

O grande José estava morto. O grande Faraó é anônimo. Os nomes dos filhos de Israel citados no início do capítulo 1 servem apenas para confirmar a genealogia dos que entraram no Egito. Agindo de forma significativa ali aparecem Sifrá e Puá, duas parteiras.

Faraó armou uma estratégia para impedir o crescimento de Israel: 1) amargar dura servidão; 2) matar os filhos homens no parto; e 3) por fim, os que nascerem lançar no Nilo. Obtendo êxito nessa estratégia o povo de Israel não viria a existir. As promessas antes registradas não se cumpririam. E a história da salvação não seria tão bela.

Mas aí Deus age através de Sifrá e Puá. Interessante que uma afirmação significativa nesse texto é que “Faraó não conhecia José” (Ex 1.8). Porém, o mais importante é que Deus conhecia Sifrá e Puá. Sabia quem eram e que poderia contar com elas. Elas decidiram não obedecer à ordem de Faraó para matar os recém nascidos.

Sifrá e Puá revelam como pessoas comuns são inseridas na historia da salvação de Deus. Enquanto não entendermos a importância da participação pessoal e comum na história da salvação, viveremos uma vida cristã forçada pelas opressões dos “Faraós”.

Se encontrares Sifrás e Puás por aí, coloque-se ao lado delas. São simples e sem alarde. Mas são parteiras, geram vidas...

domingo, 25 de dezembro de 2016

ISSO É O NATAL, ASSIM SOMOS NÓS...

Por Celson Coêlho

Esse fim de semana estava participando de um culto. Como de se esperar no Natal, celebrações e comemorações.

Em momento de destaque das celebrações se preparava a cantata e iniciava aquela apresentação planejada, organizada e bonita. Contudo, ao meu lado, duas pessoas quase discutiam sobre a reserva de um assento dentro da igreja. Aquela coisa que conhecemos bem de colocar Bíblia, bolsa, chave, etc, para guardar lugar para alguém...

Não cabe aqui juízo de valor sobre a atitude de guardar lugar no culto, isso cabe a consciência de cada um e aos responsáveis pelo culto público nas igrejas.

Pensamentos vieram à mente sobre o momento: celebração do Natal e nossos interesses humanos. Não interessa aqui o “Jesus não nasceu nessa data”; “isso é uma festa pagã” e todo aquele blá blá blá...

Falamos da importância do Nascimento, do Deus que “se tornou carne e habitou entre nós”, do criador de céu e terra que se esvaziou da sua majestade e “vestiu” a forma humana. Algo tão grandioso de pensar e repensar, de ficar maravilhado e de viver. Mas, paralelo a isso temos nós... Ah! Nossas complexidades, nossos interesses, nossas limitações.

Assim foi a época quando Jesus esteve aqui em carne. Assim também acontece hoje. Esquecemos o Natal, colocamos de lado o Nascimento e damos uma pausa na celebração da presença do Cristo para buscar nossos interesses. E quem não os tem não é?

Mas foi para isso que Ele veio. Deixou sua glória para nos dar o exemplo e nos transformar.

Max Lucado nos lembrou a importância de Cristo em Nós: "Cristo entrou no nosso mundo. Por essa razão podemos entrar no mundo dele." (Deus está aqui, p. 13)

Viva ao Natal! Aleluia! Jesus está entre nós. Ainda temos esperança...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A TRAGÉDIA E A VISÃO EVANGÉLICA SOBRE O MAL

Por Celson Coêlho

Existe uma tendência evangélica em ver a ação do Diabo (ou dos demônios) em tudo. Se ocorrer alguma coisa errada foi um demônio que assim o fez, inclusive na vida dos próprios seguidores de Cristo.

Isso ocorre devido à visão equivocada sobre o mal. Lógico que esse é um debate histórico e permeia a teologia, a filosofia e áreas afins. Não se pretende aqui discutir a origem do mal nem muitos menos ser conclusivo sobre o exposto.

Robison Cavalcanti[1] nos concede uma visão didática sobre a manifestação do mal:
“A teologia bíblica tem nos ensinado uma tríplice manifestação da maldade: a) metafísica, representada pelas hostes satânicas; b) individual, representada pela natureza humana caída; c) estrutural, representada pelos sistemas sociais distanciados dos valores do reino (opressão, injustiça, desonestidade).”

O grande problema quanto à visão da manifestação do mal ocorre quando não existe um equilíbrio dessas 3 concepções. Comumente vemos uma tendência desenfreada na ênfase a metafísica. Ao mal ligado a ação demoníaca. Tudo é culpa do demônio.

Isso ocorreu devido à popularização da chamada batalha espiritual propagada pela Teologia da Prosperidade. Nessa doutrina os demônios são os únicos culpados por tudo de errado que acontece. Essa concepção leva ao que Hank Hanegraaff[2] chama de dualismo pernicioso. Expressa “duas forças combatendo-se, em busca do controle universal, e nunca se sabe quem, afinal, ai vencer”, se Deus ou os demônios.

A ênfase nesse tipo de batalha espiritual, conforme Robison Cavalcanti, é uma fuga. É um viver sem “batalha pessoal” e sem “batalha social”. Cria-se uma frouxidão quantos aos pecados individuais (o mal individual) e uma cegueira quanto aos pecados sociais (o mal estrutural).

A manifestação do mal vista apenas desse prisma traz graves consequências para visão do mundo, para compreensão de si mesmo e não permite um entendimento correto da obra de Cristo.
Fiquemos com este alerta:

“Quando não se tem uma missão na história, algo há que ser feito para encher o tempo entre a conversão e a morte ou o arrebatamento.” (Robison Cavalcanti)



[1] CAVALCANTI, Robison. A Igreja, o País e o Mundo. Viçosa: Ultimato, 2000.
[2] HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.

sábado, 3 de dezembro de 2016

POR QUE MUITOS EVANGÉLICOS ESCOLHEM RESPOTAS BIZARRAS?

Avião da Lamia que caiu na Colômbia causando a tragédia
com a equipe da Chapecoense e convidados
Por Celson Coêlho

Quando uma tragédia traz comoção generalizada, as respostas mais bizarras aparecem para tentar explicar. Entre elas encontramos as respostas do povo evangélico.  O que nos chama atenção é a “criatividade” como fazem isso. Por isso uma pergunta se faz necessária nesses momentos: por que muitos evangélicos escolhem respostas bizarras para lidar com a realidade?

Primeiro, muitos no meio evangélico gostam de ter resposta para tudo. E de imediato. Ele não gosta de admitir que tenha dúvida. Muito menos de guardar um questionamento para posteriores esclarecimentos.

Segundo, muitos fazem isso porque na verdade são curiosos. Ahhhh! Está cheio de curiosos em nosso meio. É assim que a maioria lê a Bíblia. Apenas para matar sua curiosidade. Por isso a atração pelo livro do Apocalipse e o viés alegórico na interpretação da Bíblia.

Terceiro, essas repostas bizarras também são uma forma de “estar na moda”. Por isso que muitos abraçam essas idéias e a propagam com rapidez. Para demonstrar que estão “por dentro” do assunto. O modismo é reinante em nosso meio.

Por fim, as respostas bizarras são escolhidas por causa da superficialidade em que se encontram muitos evangélicos. Tratar algo com profundidade requer tempo e trabalho (estudo, pesquisa, etc.). Assim, infelizmente, é o nosso meio evangélico: é melhor ser superficial porque é mais fácil. Assim é com o entendimento da Bíblia. Assim também com as coisas espirituais. E claro que assim também tratam as tristes realidades da vida.

Olha que falo como quem vive do lado de dentro todas essas questões...


Porventura o ouvido não provará as palavras, como o paladar prova as comidas? (Jó 12.11)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

EU ESCOLHI CORRER COM OS CAVALOS

Por Celson Coêlho

Tenho em mãos um bom texto. Referência essa não apenas a qualidade da escrita. Mas também ao efeito criado na alma. A leitura que estou prestes a findar é da pena de Eugene Peterson. Mas algo chama a atenção na atual edição do livro: seu título.

O autor fala sobre o profeta Jeremias. Não é um comentário ao texto bíblico. São seleções de passagens biográficas do livro com o objetivo de refletir sobre o enfoque pastoral e pessoal a partir da vida do profeta. Peterson o faz de forma clara, objetiva e bíblica.

O título original do livro era “Corra com os cavalos”.[1] Refere-se à passagem que consta no capítulo 12.5 de Jeremias: “Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com os que vão a cavalo? Se em terra de paz não te sentes seguro, que farás na floresta do Jordão?” Isso foi uma admoestação divina as queixas do profeta. Conforme Eugene Peterson “Jeremias estava disposto a abandonar seu chamado divino e ser mais um dado estatístico em Jerusalém.” Esse trecho é crucial para vida do profeta e consequentemente para o relato do livro bíblico. “Sua resposta não foi dada verbalmente, mas por meio da sua biografia. A vida de Jeremias foi sua resposta: “eu correrei com os cavalos” (PETERSON, p. 17 e 18).

O título da edição atual é “Ânimo!”[2] O que nos chama a atenção nisso? Isso reflete a escolha da editora. Revelando possíveis indícios dos valores editorias: usa um termo mais “atual”, com viés psicológico, e, desemboca no alvo principal, o econômico, ou seja, mais vendas. Talvez alguns defendam o valor da simplicidade e chamada de atenção no título e também a real necessidade da editora se manter economicamente. Pode ser...

Contudo, para além das questões editorias, isso pode refletir as características do nosso cristianismo atual. Na prática cristã e nas pregações hodiernas se enfatiza o emocional e o dinheiro. Esses valores têm sua importância, mas não são principais. O afastamento do conteúdo bíblico enfraquece a prática cristã verdadeira. Não falamos da literalidade do texto. Mas sim dos princípios que estão expressos no conteúdo bíblico e que na vida do próprio Jeremias o fez deixar de ser uma criança que não sabia falar (Jr 1.6) e transformá-lo em “cidade fortificada, coluna de ferro e muros de bronze” (Jr 1.18).

Os valores da vida cristã estão além da emoção e do dinheiro. Eugene Peterson alerta que a religião da época de Jeremias “nada mais era do que a busca de auxílio sobrenatural para realização de tudo o que se desejasse: poder econômico, garantia de boa colheita, bem-estar, morte do inimigo ou vantagem sobre alguém.” Isso se assemelha com nossos dias? Contudo, a religião centrada em Deus, continua Peterson, “é um meio de descobrir o significado da vida, de preservar a justiça na sociedade, de encontrar caminhos para excelência em diversas áreas, de aprender a disciplina para viver com integridade, de compreender como Deus nos ama e como devemos corresponder a esse amor” (PETERSON, p. 59 e 60).

Jeremias trilhou e propagou essa segunda forma de vida com Deus. Optou por esse caminho de excelência não egocêntrica. Ele escolheu correr com os cavalos...




[1] Na primeira edição brasileira lançada pela editora Ultimato em 2003. Na edição americana de 1983: Run with the horses.
[2] PETERSON, Eugene. Ânimo! O antídoto bíblico contra o tédio e a mediocridade. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

domingo, 6 de novembro de 2016

“ECA! VOCÊS ME ENOJAM!” ONDE ESTÁ A ESPERANÇA CRISTÃ?

Por Celson Coêlho

Conta-se que muitos anos atrás Nietzsche censurou um grupo de cristãos dessa forma: “Eca! Vocês me enojam!” Ao ser perguntado por que os criticava daquela forma, o filósofo respondeu: “Porque vocês, remidos, não parecem remidos. São tão cheios de temor, tão dominados pela culpa, tão ansiosos e tão sem direção quanto eu. Mas eu posso ser assim. Eu não creio. Não tenho nada sobre o que lançar a minha esperança. Mas vocês afirmam ter um salvador. Por que não parecem salvos?”[1]

Brennan Manning, ao falar sobre a esperança, nos alerta que ela está em relação intima com a qualidade da fé. Ou seja, quanto mais firme estiver a fé, mais segura será a esperança. O Apóstolo Paulo diz que não devemos nos afastar da esperança transmitida pela mensagem do Evangelho. Essa relação real com a esperança é que mantém o cristão “firme e alicerçado” na fé (Colossenses 1.23).
Em o Novo Testamento, o termo grego para esperança (Gr. Elpis) é derivado de uma palavra que significa antecipar (Gr. Elpos). “As palavras nunca indicam uma antecipação vaga ou temerosa mas, sim, sempre a expectativa dalguma coisa boa.”[2] Não significa uma angustiante ansiedade pelo que estar por vir. Contrário disso é a certeza confiante que a alegria virá ao amanhecer.

William Barclay ao analisar o termo esclarece que a totalidade da fé cristã está fundamentada em três colunas: fé, esperança e amor (1Corintios 13.13). Sendo assim, qual a origem da esperança cristã? Vejamos algumas fontes conforme Barclay[3]:

1) Em Cristo e na sua Obra: Jesus é a base da esperança cristã (1Timóteo 1.1). Ela não se baseia em algo que o homem tenha feito sozinho;

2) No Evangelho: a mensagem das boas novas “levanta o coração de qualquer homem que está pressionado pelo pecado” (Colossenses 1.27); e

3) Na experiência: Vivendo confiante em Deus, mesmo em tribulações, fortalecemos nossa esperança em dias melhores. Veja o que Paulo diz em Romanos 5.4: a tribulação produz perseverança, a perseverança gera experiência. Essa, testada e aprovada, transforma-se em esperança. Completa o apóstolo: “a esperança não confunde” (Rm 5.5).

O cristianismo não nega a realidade do sofrimento e do mal. Contudo, a esperança cristã nos mantém perseverante apesar deles. Quando fortalecidos pela esperança, não vivemos atemorizados por nós mesmos nem pelo mundo.

Fomos chamados para uma esperança viva (1Pedro 1.3). Isso nos lembra uma esperança renovada na confiança daquele que nos motivou nessa caminhada e nos fortalece a cada dia: Jesus, o Cristo.

Celson Coêlho
Editor do Blog



[1] MANNING, Brennan. Convite à Solitude. São Paulo: Mundo Cristão, 2010.
[2] Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. V. 2. São Paulo: Vida Nova, 1982.
[3] BARCLAY, William. Palavras Chaves do Novo Testamento. São Paulo. Vida Nova, 2000.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

ONDE CAIM ARRUMOU UMA ESPOSA?

Por Celson Coêlho

Na leitura do livro de Gênesis algumas pessoas ainda encontram dúvidas de onde surgiu a esposa de Caim relatada em Gênesis 4.17 (Gn). Isso ocorre devido à impressão que se tem em relação ao relato de Caim e Abel. Iniciando o capítulo 4 de Gênesis encontramos que Adão e Eva tiveram Caim e Abel. Se existiam apenas Adão, Eva, Abel e Caim, de onde surgiu uma mulher para relacionar-se com Caim?

A dúvida em relação à leitura do texto bíblico deve ser vista com normalidade. Isso mesmo: é normal ter dúvidas ao ler a Bíblia. Só não tem quem não pensa enquanto lê o texto. E isso é um grande perigo...

Essa dúvida pode ser positiva quando desperta o leitor para o esclarecimento, para o crescimento através de uma melhor compreensão. Na Bíblia isso ocorre ao buscar a harmonia de um texto isolado a partir de seu contexto e/ou totalidade. Ou seja, veja o que outras partes da Bíblia podem esclarecer quanto aquele texto em dúvida.

Nessa situação específica, fazendo uma leitura do contexto, encontramos em Gn 5.4 que Adão teve filho e filhas. Devemos entender também que o relato não está em ordem cronológica. Em Gn 4.26 lemos que Sete gerou um filho. Também nos vem à dúvida: de onde veio sua esposa?

Vejamos o que diz Kyle Yates sobre o assunto:
“Está claro que Adão e Eva tiveram muitos outros filhos e filhas, antes de Caim se casar, um lapso de muitos anos se passou (talvez centenas deles). Uma vez que toda vida veio pelo casal humano divinamente criado, é preciso concluir que num certo período da história irmãos e irmãs casaram-se entre si. Na ocasião em quando Caim estava pronto para estabelecer um lar, Adão e Eva tinham numerosos descendentes.” (Gênesis, Comentário Bíblico Moody. pg. 14)
Champlin ainda nos esclarece:
“A Bíblia não diz que Adão e Eva geraram somente aqueles três filhos. Caim, Abel e Sete foram apenas três dentre os muitos filhos do casal. Seus nomes são fornecidos por causa do relato expressivo que gira em torno deles, e nada mais... Não há  informação quanto ao número desses filhos e filhas, mas essa informação é suficiente para indicar que Caim levou consigo, para Node, uma de suas irmãs.” (Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. pg 587)
A Bíblia de Estudo Pentecostal adverte:
“Caim, portanto, deve ter casado com uma das suas próprias irmãs. Semelhante relacionamento foi uma necessidade, no início. Posteriormente, devido à proliferação dos funestos efeitos da queda e os casamentos entre parentes multiplicarem as anomalias biológicas nos filhos, esse tipo de casamento foi proibido (Lv 18.6,9; 20.12, 17-21; Dt 27.22,23).
Sendo assim, a conclusão que chegamos é que Caim casou com uma parenta sua. Talvez uma irmã.

Celson Coêlho

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A TIRANIA DA UTILIDADE

Por Celson Coêlho

Já ouvimos um ditado que pode resumir o que está escrito aqui: “você vale o que você faz.” O valor das pessoas é medido pela utilidade que elas têm. Esse é um grande mal que domina os relacionamentos. Seu valor não está no que você é, mas sim no que você faz.

Esse sentimento também norteia os relacionamentos na igreja. Mas não é “privilégio” apenas nosso. O grande apóstolo Paulo parece que andou por essa trilha ao rejeitar a companhia do jovem Marcos em sua segunda viagem missionária (Atos 15.36-40). Anteriormente Marcos havia abandonado de forma surpreendente a primeira viagem (Atos 13.13-15). Não foi totalmente útil na primeira viagem, não teria valor na outra. Acredito que foi esse o pensamento de Paulo.

Mais adiante em seu ministério Paulo solicita a Timóteo: “Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é muito útil para o ministério” (2Timóteo 4.11). O termo “útil” em destaque expressa “dar lucro”, “ser proveitoso”, “dar resultado”. Inicialmente Marcos parecia não ser útil. Agora é muito útil. Quando Marcos não era útil o que aconteceu com ele? Quando você não é útil o que acontece com você?

Quando Marcos não valia nada em termos de “utilidade”, na sua vida existiu um tal de Barnabé. Barnabé que o acompanhou. Barnabé que possivelmente o restaurou. Mas não foi fácil. Barnabé abriu mão do seu “status”. Abriu mão da harmonia numa amizade bem sucedida com Paulo. Talvez abriu mão de ter sua história tão densa como foi a de Paulo. Simplesmente abriu mão...

Isso nos faz lembrar as palavras de Jesus registradas em Lucas 15 (Lc). Nesse capítulo estão registradas 3 parábolas que nos enfatizam o valor do que “se perdeu”: a ovelha perdida; a dracma perdida e o filho pródigo (perdido). Elas foram propostas devido ao questionamento dos fariseus e escribas: “este [Jesus] recebe pecadores e come com eles” (Lc 15.2). A crítica era por que Jesus dava atenção a quem não tinha utilidade para o reino de Deus.

Aquele que deixou sua glória no céu e veio ao mundo pelos inúteis pecadores lembra a importância de uma ovelha perdida e sem utilidade em detrimento das 99 que estão no aprisco e são totalmente úteis (Lc 15.3-7). Lembra também da mulher que tem 9 moedas (dracmas) em segurança e úteis para sua economia, mas procura incansavelmente uma moeda que se perdeu e estava sem valor (Lc 15.8-10). Ainda enfatiza de forma extensiva e com cores vividas o valor do filho perdido e sem utilidade, apesar do outro filho que estava em casa com grande utilidade (Lc 15.11-32).

O sentimento que imperava em Barnabé e em Jesus não era o de apenas dar valor a quem era útil. O valor dos perdidos temporariamente não estava no que eles poderiam fazer. Antes seu valor estava no que eles eram. Barnabé deu atenção a Marcos pois ele era um irmão de fé, era um companheiro de viagem e também um parente seu. Não tinha utilidade momentânea, mas tinha valor intrínseco como pessoa. A ovelha, antes de receber o adjetivo de “perdida”, ainda é ovelha. A moeda mesmo recebendo a caracterização de “perdida”, ainda continuou sendo moeda. O filho ainda era filho depois de estar perdido. As pessoas têm valor em si mesmo, antes de serem úteis em alguma coisa. Mesmo que não valorizemos isso...


Celson Coêlho

sábado, 25 de junho de 2016

“AO REDOR” E “AO DERREDOR”, QUAL A DIFERENÇA?


 Por Celson Coêlho

Existem duas passagens bíblicas que usam esses termos. Salmos 34.7 (Sl) afirma que “O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra.” Em 1ª Pedro 5.8 (Pe) encontramos que “o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar.”

Essas passagens falam do mundo espiritual. A partir delas criaram um entendimento da batalha espiritual que tenta explicar a proteção de Deus mais próxima de nós e a ação do diabo externa a essa proteção. Algo parecido com dois círculos concêntricos, onde nós estamos no meio, o anjo do Senhor está logo depois e o diabo após essa proteção.

Isso é fruto da nossa tentativa humana de explicar o agir de Deus. Em alguns momentos tem sua validade, principalmente quando está em harmonia com os princípios bíblicos. Em outros, traz apenas confusão a nossa mente, quando não enreda pelo caminho da heresia.

No caso dessas passagens cria-se uma preocupação em dizer quem está “ao redor” e “ao derredor”. Têm até medo em errar e, por exemplo, dizer que o “anjo do Senhor está ao derredor” ou vice-versa. Quando na verdade, literalmente esses termos dizem a mesma coisa. Na língua portuguesa esses termos são sinônimos. Basta uma simples consulta on-line para chegar a essa conclusão.

Outra forma de esclarecer esses termos é usando outra versão bíblica. O problema é que somos viciados em ler a Bíblia em uma única versão e perdemos a possibilidade de compreender melhor a Palavra do Senhor. A Nova Versão Internacional (NVI) usa “ao redor” em ambos os textos. A Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH) usa “em volta” para ambos.

Pode-se confirmar a semelhança de significado também ao examinar os termos no original. Em Sl 34.7, o temor hebraico é “sabhabha” significando basicamente “redor” ou “circundar”. O termo grego em 1ª Pe 5.8 é “peripateo” significando “andar ao redor”. Das 95 ocorrências no Novo Testamento apenas na epístola de Pedro recebe a tradução “anda em derredor.” As outras ocorrências, em quase totalidade, traduzem-se por “andar” ou “caminhar”.

Com isso, na construção da doutrina bíblica sobre batalha espiritual, essas passagens não delimitam “posições geográficas” de atuação espiritual. Por isso não devemos ter “medo” em dizer quem está “ao redor” ou “ao derredor.” Temos apenas que lembrar que “maior é o que está em nós do que aquele está no mundo” (1ª João 4.4).

Referências
Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego. CPAD, 2011.
Concordância Fiel do Novo Testamento. Editora Fiel, 1994.

sábado, 28 de maio de 2016

CAMA CURTA E COBERTOR ESTREITO: QUE INCÔMODO!

Por Celson Coêlho                                                  

“Porque a cama será tão curta, que ninguém se poderá estender nela; o e o cobertor, tão estreito, que ninguém poderá se cobrir com ele.” (Isaías 28.20)


Normalmente faço algumas viagens a trabalho. Para isso preciso dormir em outro lugar que não a minha casa como de costume. Um dos maiores incômodos dessa situação é ao deitar-se para dormir perceber que a cama ou o lençol são inadequados. Como sou um pouco alto, isso ocorre com frequência.

Dormir não é um luxo. É um momento da vida extremamente necessário. Momento de paz e tranquilidade. Descansamos a mente e o corpo. Renovamos as forças. Deveria ser um momento sagrado. Nem sempre é assim. Quando paramos para descansar num lugar inadequado, o que deveria ser paz vira transtorno. O que deveria ser descanso vira incômodo.

Dormir normalmente é sinônimo conforto e segurança. Conforto porque é gerado um bem estar pela tranquilidade do descanso. Segurança porque pode se desligar de todas as preocupações e dos perigos que elas trazem.

Tem momentos que pensamos estar em conforto e segurança e na verdade não é. O texto de Isaías 28.20, exposto acima, nos alerta quanto a esses momentos da vida.

Imagine-se num noite fria com um cobertor inadequado. Quando puxa para cobrir em cima, descobre o pé. Quando estica de um lado, descobre o outro. E a cama curta? Gente! Que coisa horrível ficar com os pés pendurados...

O profeta alerta o povo de Israel quanto ao perigo de não buscar em Deus seu real conforto e segurança. Eles colocaram sua esperança de tranquilidade na aliança com o Egito e não em Deus.

O que está sendo falado é muito sério. Por isso por quatro vezes ele pede para ser ouvido no versículo 23: “Inclinai os ouvidos e ouvi a minha voz; atendei bem e ouvi o meu discurso” (Is. 28.23). Ele é enfático porque a mensagem é urgente.

Israel estava sendo abatido pela Assíria. Isso tinha permissão divina para ensinar ao seu povo como realmente depender dele. Ao contrário, buscou dependência do Egito e acreditou que estava tudo tranquilo. O profeta intervém para que o povo entenda qual é a vontade de Deus.

Seu alerta vem reforçado por duas ilustrações para entenderem qual a vontade de Deus quanto a isso:

1ª) A Preparação para Plantar: “Um homem que está preparando o terreno para semear trigo não gasta todo seu tempo arando a terra, cavando e mexendo nela. Depois de ter aplanado a terra, ele semeia o endro e o cominho, e planta o trigo, a cevada e outros cereais nos lugares certos. Ele faz tudo direito porque Deus o ensinou” (Is. 28.24-26; BLH*). Existe uma ordem certa para plantar e fazer uma boa colheita. Arar a terra, mexer e cavar. Mas não para aqui. Depois tem que semear nos lugares certos. Não adianta plantar sem arar a terra. Também não adianta apenas arar a terra e não plantar. Essa ordem foi estabelecida por Deus e ensinada aos homens. Não adianta ir contra essa ordem. Será ilusão. Não trará o resultado desejado. Não trará o conforto e a segurança almejados. O povo de Israel estava falhando em não receber e obedecer à ordem de Deus. Nós também falhamos quando seguimos por esse caminho...

2ª) Existem formas diferentes para moer os grãos: “E no tempo da colheita ele não usa um instrumento pesado para debulhar os grãos de endro e de cominho; ao contrário, ele usa varas pequenas e leves. Quando malha o trigo, ele não continua malhando até quebrar os grãos. Ele sabe passar a carreta por cima das espigas sem esmagar os grãos” (Is 28.27, 28; BLH*). Cada grão tem sua forma diferente e correta de moer para melhor proveito. Não adianta usar um instrumento pesado em um grão que precisa de vara para ser moído. O inverso também não traz resultado adequado. Um instrumento pesado quebrará um grão sensível. Um instrumento leve não transforma um grão robusto em alimento. Cada momento da vida trás sua particularidade e pode ser instrumento de Deus para tratar o seu povo.

O tempo certo e as situações certas são feitas por Deus. O conforto e a segurança real são proporcionados por aquele que tem em suas mãos o controle do tempo e das situações, o Senhor da História.

As pessoas e as coisas desse mundo podem nos trazer tranquilidade. Mas será limitada e passageira. Talvez até gere frustração ou feridas. O mesmo desconforto do cobertor e da cama inadequados. Precisamos entender, reconhecer e obedecer a ordem Deus. Mesmo nos momentos mais difíceis devemos ter a certeza de Isaías: “Também isso procede do Senhor dos Exércitos; ele é maravilhoso em conselho e grande em sabedoria” (Is 28.29).
Deus é nosso conforto e segurança em todos os momentos!

Celson Coêlho

*BLH: Bíblia na Linguagem de Hoje.

terça-feira, 12 de abril de 2016

A TERRA ERA SEM FORMA E VAZIA, E COMO TINHA ÁGUA?



*Por Celson Coelho

“No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas.” (Gn 1.1,2)

A terra era vazia, como pode ter água? Essa pode ser a dúvida de alguns quanto à narração da criação registrada em Gênesis (Gn).

O texto bíblico nos revela ações da criação de Deus. Não se constitui um ato único. Os dois primeiros versículos de Gênesis nos mostram a criação como um todo (“céus e terra”, v. 1) e que estava sem organização (“sem forma e vazia”, v. 2).

Do versículo 3 em diante, a partir da interação divina com o universo criado, o texto bíblico nos mostra as ações de organização do universo criado (vejam termos como “disse Deus”, “criou Deus”, “fez Deus”).
Então o que temos num primeiro momento é a criação de forma geral, de forma bruta ou primitiva (sem organização) e depois os detalhes dessa criação (sua organização).

Com esse panorama fica melhor entendermos o “vazia” e o ter “água”. Do versículo 6 ao 10 existe uma longa descrição da organização das águas, neles não descreve-se a criação das águas. Apenas sua organização. Em nenhum outro momento no relato de Gn 1 fala-se sobre a criação das águas. Logo, subtende-se que as águas foram criadas no momento da criação “dos céus e da terra” (a criação geral) e depois ocorreu sua organização. Ou seja, as águas existiam desde o começo da criação.

E o termo vazia (v. 2) o que quer dizer? Ele refere-se à desocupação da terra. Ainda não existiam as espécies descritas nos versículos seguintes. A palavra “vazia” juntamente com “sem forma”, “trevas” e “abismo”, procuram evidenciar que ainda faltava a ação organizadora de Deus.
Completando toda a criação “viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” (Gn 1.31)


Celson Coêlho

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O QUE É UM TRABALHO SÉRIO?



Estava assistindo uma palestra na internet e fui despertado. Eduardo Gianetti, ao falar sobre “Existe Pensamento Sério no Brasil?”, pontua características do que seria um pensamento sério. Levou-me a reflexão...[1]

A partir do exposto em sua introdução, repensei esses valores para o que seria “um trabalho sério?”.
Como simples apontamentos, vejamos o que poderíamos chamar de trabalho sério:

1) Tem permanência: Um trabalho sério é algo que não é passageiro. Mesmo que ele tenha findado, ainda permanece como referencial por muito tempo. Até quem não participou dele diretamente colhe seus frutos e ouve suas referencias. Estamos falando de um trabalho com consequências duradouras, que não morre em curto prazo. Sobrevive ao crivo do tempo.

2) Originalidade: Não é um simples ato repetitivo realizado no decorrer dos dias. Não salientamos aqui a busca por ser o “descobridor da roda”. Quando desenvolvido com seriedade, a pessoa se envolve de tal forma com o trabalho que não permite que ele seja mera repetição. São abertas novas possibilidades de realização e motivam as pessoas na criatividade. É um trabalho desbravador e abre novas perspectivas onde não existia.

3) Compromisso com as pessoas: A seriedade não se preocupa apenas com estatística e “status”. Tem coerência com a verdade e o bem. O trabalho sério tem real interesse em mudar a vida das pessoas e normalmente incomoda as pessoas para assim agirem. Compromisso com mudanças de vidas é a característica mais importante de qualquer trabalho.

Foram apenas alguns apontamentos, nada mais que isso...

Celson Coêlho




[1] O que exponho aqui não é a repetição da fala do palestrante. Antes, uma reflexão ao tentar entender as características citadas por ele na realidade dos trabalhos eclesiásticos.