quinta-feira, 28 de julho de 2016

A TIRANIA DA UTILIDADE

Por Celson Coêlho

Já ouvimos um ditado que pode resumir o que está escrito aqui: “você vale o que você faz.” O valor das pessoas é medido pela utilidade que elas têm. Esse é um grande mal que domina os relacionamentos. Seu valor não está no que você é, mas sim no que você faz.

Esse sentimento também norteia os relacionamentos na igreja. Mas não é “privilégio” apenas nosso. O grande apóstolo Paulo parece que andou por essa trilha ao rejeitar a companhia do jovem Marcos em sua segunda viagem missionária (Atos 15.36-40). Anteriormente Marcos havia abandonado de forma surpreendente a primeira viagem (Atos 13.13-15). Não foi totalmente útil na primeira viagem, não teria valor na outra. Acredito que foi esse o pensamento de Paulo.

Mais adiante em seu ministério Paulo solicita a Timóteo: “Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é muito útil para o ministério” (2Timóteo 4.11). O termo “útil” em destaque expressa “dar lucro”, “ser proveitoso”, “dar resultado”. Inicialmente Marcos parecia não ser útil. Agora é muito útil. Quando Marcos não era útil o que aconteceu com ele? Quando você não é útil o que acontece com você?

Quando Marcos não valia nada em termos de “utilidade”, na sua vida existiu um tal de Barnabé. Barnabé que o acompanhou. Barnabé que possivelmente o restaurou. Mas não foi fácil. Barnabé abriu mão do seu “status”. Abriu mão da harmonia numa amizade bem sucedida com Paulo. Talvez abriu mão de ter sua história tão densa como foi a de Paulo. Simplesmente abriu mão...

Isso nos faz lembrar as palavras de Jesus registradas em Lucas 15 (Lc). Nesse capítulo estão registradas 3 parábolas que nos enfatizam o valor do que “se perdeu”: a ovelha perdida; a dracma perdida e o filho pródigo (perdido). Elas foram propostas devido ao questionamento dos fariseus e escribas: “este [Jesus] recebe pecadores e come com eles” (Lc 15.2). A crítica era por que Jesus dava atenção a quem não tinha utilidade para o reino de Deus.

Aquele que deixou sua glória no céu e veio ao mundo pelos inúteis pecadores lembra a importância de uma ovelha perdida e sem utilidade em detrimento das 99 que estão no aprisco e são totalmente úteis (Lc 15.3-7). Lembra também da mulher que tem 9 moedas (dracmas) em segurança e úteis para sua economia, mas procura incansavelmente uma moeda que se perdeu e estava sem valor (Lc 15.8-10). Ainda enfatiza de forma extensiva e com cores vividas o valor do filho perdido e sem utilidade, apesar do outro filho que estava em casa com grande utilidade (Lc 15.11-32).

O sentimento que imperava em Barnabé e em Jesus não era o de apenas dar valor a quem era útil. O valor dos perdidos temporariamente não estava no que eles poderiam fazer. Antes seu valor estava no que eles eram. Barnabé deu atenção a Marcos pois ele era um irmão de fé, era um companheiro de viagem e também um parente seu. Não tinha utilidade momentânea, mas tinha valor intrínseco como pessoa. A ovelha, antes de receber o adjetivo de “perdida”, ainda é ovelha. A moeda mesmo recebendo a caracterização de “perdida”, ainda continuou sendo moeda. O filho ainda era filho depois de estar perdido. As pessoas têm valor em si mesmo, antes de serem úteis em alguma coisa. Mesmo que não valorizemos isso...


Celson Coêlho

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