sexta-feira, 11 de novembro de 2016

EU ESCOLHI CORRER COM OS CAVALOS

Por Celson Coêlho

Tenho em mãos um bom texto. Referência essa não apenas a qualidade da escrita. Mas também ao efeito criado na alma. A leitura que estou prestes a findar é da pena de Eugene Peterson. Mas algo chama a atenção na atual edição do livro: seu título.

O autor fala sobre o profeta Jeremias. Não é um comentário ao texto bíblico. São seleções de passagens biográficas do livro com o objetivo de refletir sobre o enfoque pastoral e pessoal a partir da vida do profeta. Peterson o faz de forma clara, objetiva e bíblica.

O título original do livro era “Corra com os cavalos”.[1] Refere-se à passagem que consta no capítulo 12.5 de Jeremias: “Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com os que vão a cavalo? Se em terra de paz não te sentes seguro, que farás na floresta do Jordão?” Isso foi uma admoestação divina as queixas do profeta. Conforme Eugene Peterson “Jeremias estava disposto a abandonar seu chamado divino e ser mais um dado estatístico em Jerusalém.” Esse trecho é crucial para vida do profeta e consequentemente para o relato do livro bíblico. “Sua resposta não foi dada verbalmente, mas por meio da sua biografia. A vida de Jeremias foi sua resposta: “eu correrei com os cavalos” (PETERSON, p. 17 e 18).

O título da edição atual é “Ânimo!”[2] O que nos chama a atenção nisso? Isso reflete a escolha da editora. Revelando possíveis indícios dos valores editorias: usa um termo mais “atual”, com viés psicológico, e, desemboca no alvo principal, o econômico, ou seja, mais vendas. Talvez alguns defendam o valor da simplicidade e chamada de atenção no título e também a real necessidade da editora se manter economicamente. Pode ser...

Contudo, para além das questões editorias, isso pode refletir as características do nosso cristianismo atual. Na prática cristã e nas pregações hodiernas se enfatiza o emocional e o dinheiro. Esses valores têm sua importância, mas não são principais. O afastamento do conteúdo bíblico enfraquece a prática cristã verdadeira. Não falamos da literalidade do texto. Mas sim dos princípios que estão expressos no conteúdo bíblico e que na vida do próprio Jeremias o fez deixar de ser uma criança que não sabia falar (Jr 1.6) e transformá-lo em “cidade fortificada, coluna de ferro e muros de bronze” (Jr 1.18).

Os valores da vida cristã estão além da emoção e do dinheiro. Eugene Peterson alerta que a religião da época de Jeremias “nada mais era do que a busca de auxílio sobrenatural para realização de tudo o que se desejasse: poder econômico, garantia de boa colheita, bem-estar, morte do inimigo ou vantagem sobre alguém.” Isso se assemelha com nossos dias? Contudo, a religião centrada em Deus, continua Peterson, “é um meio de descobrir o significado da vida, de preservar a justiça na sociedade, de encontrar caminhos para excelência em diversas áreas, de aprender a disciplina para viver com integridade, de compreender como Deus nos ama e como devemos corresponder a esse amor” (PETERSON, p. 59 e 60).

Jeremias trilhou e propagou essa segunda forma de vida com Deus. Optou por esse caminho de excelência não egocêntrica. Ele escolheu correr com os cavalos...




[1] Na primeira edição brasileira lançada pela editora Ultimato em 2003. Na edição americana de 1983: Run with the horses.
[2] PETERSON, Eugene. Ânimo! O antídoto bíblico contra o tédio e a mediocridade. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

domingo, 6 de novembro de 2016

“ECA! VOCÊS ME ENOJAM!” ONDE ESTÁ A ESPERANÇA CRISTÃ?

Por Celson Coêlho

Conta-se que muitos anos atrás Nietzsche censurou um grupo de cristãos dessa forma: “Eca! Vocês me enojam!” Ao ser perguntado por que os criticava daquela forma, o filósofo respondeu: “Porque vocês, remidos, não parecem remidos. São tão cheios de temor, tão dominados pela culpa, tão ansiosos e tão sem direção quanto eu. Mas eu posso ser assim. Eu não creio. Não tenho nada sobre o que lançar a minha esperança. Mas vocês afirmam ter um salvador. Por que não parecem salvos?”[1]

Brennan Manning, ao falar sobre a esperança, nos alerta que ela está em relação intima com a qualidade da fé. Ou seja, quanto mais firme estiver a fé, mais segura será a esperança. O Apóstolo Paulo diz que não devemos nos afastar da esperança transmitida pela mensagem do Evangelho. Essa relação real com a esperança é que mantém o cristão “firme e alicerçado” na fé (Colossenses 1.23).
Em o Novo Testamento, o termo grego para esperança (Gr. Elpis) é derivado de uma palavra que significa antecipar (Gr. Elpos). “As palavras nunca indicam uma antecipação vaga ou temerosa mas, sim, sempre a expectativa dalguma coisa boa.”[2] Não significa uma angustiante ansiedade pelo que estar por vir. Contrário disso é a certeza confiante que a alegria virá ao amanhecer.

William Barclay ao analisar o termo esclarece que a totalidade da fé cristã está fundamentada em três colunas: fé, esperança e amor (1Corintios 13.13). Sendo assim, qual a origem da esperança cristã? Vejamos algumas fontes conforme Barclay[3]:

1) Em Cristo e na sua Obra: Jesus é a base da esperança cristã (1Timóteo 1.1). Ela não se baseia em algo que o homem tenha feito sozinho;

2) No Evangelho: a mensagem das boas novas “levanta o coração de qualquer homem que está pressionado pelo pecado” (Colossenses 1.27); e

3) Na experiência: Vivendo confiante em Deus, mesmo em tribulações, fortalecemos nossa esperança em dias melhores. Veja o que Paulo diz em Romanos 5.4: a tribulação produz perseverança, a perseverança gera experiência. Essa, testada e aprovada, transforma-se em esperança. Completa o apóstolo: “a esperança não confunde” (Rm 5.5).

O cristianismo não nega a realidade do sofrimento e do mal. Contudo, a esperança cristã nos mantém perseverante apesar deles. Quando fortalecidos pela esperança, não vivemos atemorizados por nós mesmos nem pelo mundo.

Fomos chamados para uma esperança viva (1Pedro 1.3). Isso nos lembra uma esperança renovada na confiança daquele que nos motivou nessa caminhada e nos fortalece a cada dia: Jesus, o Cristo.

Celson Coêlho
Editor do Blog



[1] MANNING, Brennan. Convite à Solitude. São Paulo: Mundo Cristão, 2010.
[2] Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. V. 2. São Paulo: Vida Nova, 1982.
[3] BARCLAY, William. Palavras Chaves do Novo Testamento. São Paulo. Vida Nova, 2000.