segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A TRAGÉDIA E A VISÃO EVANGÉLICA SOBRE O MAL

Por Celson Coêlho

Existe uma tendência evangélica em ver a ação do Diabo (ou dos demônios) em tudo. Se ocorrer alguma coisa errada foi um demônio que assim o fez, inclusive na vida dos próprios seguidores de Cristo.

Isso ocorre devido à visão equivocada sobre o mal. Lógico que esse é um debate histórico e permeia a teologia, a filosofia e áreas afins. Não se pretende aqui discutir a origem do mal nem muitos menos ser conclusivo sobre o exposto.

Robison Cavalcanti[1] nos concede uma visão didática sobre a manifestação do mal:
“A teologia bíblica tem nos ensinado uma tríplice manifestação da maldade: a) metafísica, representada pelas hostes satânicas; b) individual, representada pela natureza humana caída; c) estrutural, representada pelos sistemas sociais distanciados dos valores do reino (opressão, injustiça, desonestidade).”

O grande problema quanto à visão da manifestação do mal ocorre quando não existe um equilíbrio dessas 3 concepções. Comumente vemos uma tendência desenfreada na ênfase a metafísica. Ao mal ligado a ação demoníaca. Tudo é culpa do demônio.

Isso ocorreu devido à popularização da chamada batalha espiritual propagada pela Teologia da Prosperidade. Nessa doutrina os demônios são os únicos culpados por tudo de errado que acontece. Essa concepção leva ao que Hank Hanegraaff[2] chama de dualismo pernicioso. Expressa “duas forças combatendo-se, em busca do controle universal, e nunca se sabe quem, afinal, ai vencer”, se Deus ou os demônios.

A ênfase nesse tipo de batalha espiritual, conforme Robison Cavalcanti, é uma fuga. É um viver sem “batalha pessoal” e sem “batalha social”. Cria-se uma frouxidão quantos aos pecados individuais (o mal individual) e uma cegueira quanto aos pecados sociais (o mal estrutural).

A manifestação do mal vista apenas desse prisma traz graves consequências para visão do mundo, para compreensão de si mesmo e não permite um entendimento correto da obra de Cristo.
Fiquemos com este alerta:

“Quando não se tem uma missão na história, algo há que ser feito para encher o tempo entre a conversão e a morte ou o arrebatamento.” (Robison Cavalcanti)



[1] CAVALCANTI, Robison. A Igreja, o País e o Mundo. Viçosa: Ultimato, 2000.
[2] HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.

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Celson Coêlho